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terça-feira, 1 de maio de 2018

Cartas para Lula - 04

Foto de @Lula Curitiba, Paraná - 1º de Maio de 2018. #LulaLivre 
(https://www.facebook.com/Lula/?hc_ref=ARSwwSkSYLdE8RBAvYpaC48pg_jb7cL26kTiEIR5hQVJRmgHTnR5SCPetR0WxDaLF70&fref=nf.) 

Cartas para Lula – 04
     Como vai, companheiro? As notícias que circulam na imprensa oficial, na imprensa alternativa e nos círculos sociais nos acalentam, pois dizem que você está bem, na medida do possível. Fico mais tranquila assim. 
   Pelo Brasil a fora, continuam as manifestações reivindicando a tua liberdade. Sabe, a cada dia que passa, nos damos conta de que cadeia não foi feita para os amigos daqueles que deveriam ser os guardiões da Lei e da Justiça. Para aqueles, parecem ampliar as brechas da lei.
     E o povo, que já sentia na própria pele a ponta penetrante da espada empunhada pelos olhos cegos e ouvidos moucos, percebe que a balança deve ter sido herdada daqueles comerciantes da antiguidade, que tinham pesos para venda diferentes dos pesos para compras.
     Como todo gato tem rabo e como todo rabo de gato balança, companheiro, não há como esconder gatos. Por isso, o povo já percebeu que a tua prisão é política e que ocorre para que não concorra às eleições.  Acontece que a tua popularidade sobe dia após dia, enquanto a dos demais desce ao subsolo. Não há como candidato de partido governista vencer em eleições limpas e diretas. Não há, não! Se havia alguma possibilidade mínima, ela escorreu pelo ralo.
     Ah, sabe aquele último poema que te enviei, “Das Manhãs...”? Sobre se ele foi ou não inspirado em ti? Reproduzo o que respondeu o próprio poeta José-Augusto de Carvalho: “(...) foi escrito a pensar nele e noutras vítimas do Imperialismo.”
    Por hoje, vou ficando por aqui, meu querido e para sempre Presidente do Brasil e deixo um poema que você já deve conhecer, pois foi escrito pelo poeta concretista Haroldo de Campos, em 1996. Contudo, eu achei o poema tão atual que pensei: Por que não o enviar?
     Não há golpe que mude a vontade popular: “como um mais dois são três, vai dar Lula em 2018 outra vez!”    
        Com um carinhoso abraço,


Luzia Cardoso LULA


POR UM BRASIL-CIDADÃO
como um mais dois são três

vai dar lula desta vez
quem quer terra
vai ter terra
quem tem fome
vai ter pão

o brasil vai ficar sério

cadeia para o ladrão
emprego para quem sua
adeus meninos de rua
o brasil vai ficar sério
vai sair da contramão

de um metalúrgico vem

esta operação cirúrgica
que vai tirar da UTI
o brasil - grande nação - 
que o latifúndio estrangula
mas que graças ao luís lula
vai virar país-cidadão

como um mais dois são três

vai dar luta desta vez
e já no primeiro turno
pois o povo é bom aluno
e no suor diurno e noturno
aprendeu a sua lição

como um mais dois são três

vai dar lula desta vez
lulalá lulalá lulalá
não vote em vão: vote em lula
por um brasil-cidadão

Haroldo de Campos
http://csbh.fpabramo.org.br/o-que-fazemos/editora/teoria-e-debate/edicoes-anteriores/poeta-haroldo-de-campos


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Livro para Lula



" E és tu, Zé-Ninguém, que fazes do grande homem
um paria quando o seu pensamento correto e duradouro
 enfrenta a mesquinhez e a precariedade das tuas convicções.
És tu que o condenas à solidão, não à solidão que gera 
grandes obras, mas à solidão do temor da incompreensão
 e do ódio. Porque tu és “o povo”, a “opinião pública” e a 
consciência social”. (...)  Zé-Ninguém, tu estás sempre do 
lado dos opressores. (...) Eu sei que não és apenas medíocre,
Zé-Ninguém. Sei que também tens as tuas grandes horas na vida,
momentos de “júbilo” e “exaltação”, de “vôo”. Mas falta-te a coragem
 para subir cada vez mais alto, para manter a tua própria exaltação." 
(Wilhelm Reich, 1946)




 Querido e para sempre presidente, "Escuta, Zé-Ninguém!" é um dos livros do autor que se dedicou ao que denominou de "peste emocional". Reich muito investiu em pesquisas para compreender essa "peste".
 Psiquiatra e psicanalista, de família judia, da Áustria, viveu entre  1897 a 1957.  Fugiu do nazismo, passou por vários  países da Europa e, por fim, chegou aos EUA, onde foi investigado pelo FBI, que suspeitava que tivesse atividades subversivas.   
 Neste livro, Reich escreve ao povo, a quem denomina de "Zé-Ninguém". Reich faz uma crítica ao próprio povo, sem papas na língua.
 Espero que goste da leitura eque este livro ajude a entender o povo brasileiro.

Boa leitura!

Com carinho,

Luzia Cardoso Lula

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cartas para Lula - 03 - A realidade do Triplex

Fotos do triplex do Guarujá feitas pelo MTST.



Rio de Janeiro, 18 de abril de 2018.


        
         Querido Lula, devido a uma atitude sensacional e inesperada do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, as imagens de cada canto e de cada cômodo do tal tríplex do Guarujá vieram a público.
         Pelo amor de Deus, que apertamento ruim! O acabamento é de terceira! E aquelas escadas? Quem projetou aquele tríplex deveria estar de mal-humorado. Não é possível! Idosos e crianças naquele apertamento, nem pensar!
         Aquilo lá também não serve para adultos jovens trabalhadores, não! Onde já se viu tantas escadas para descer e subir!
         Avaliaram aquele apertamento em R$ 2.002.000,00? Sinceramente, as construções dos antigos Institutos de Aposentadorias e Pensões, da década de 40 e 50, dão de milhões a zero nesse tríplex do BANCOOP/OAS!
         Até mesmo as mais populares do Banco Nacional de Habitação são melhores do que aquela lá.  Aquele tal tríplex parece estar aquém das construções mais baratas do Programa Minha Casa Minha Vida! Eta, tríplex ruim demais da conta, sô!
         E o tal elevador privativo que tanto alardearam, dizendo que estava entre as tais melhorias financiadas pela OAS? Não apareceu elevador nas imagens, não! Se por acaso houver elevador privativo por lá, ele deve estar embutido em algum armário. Também não percebi sinal algum das obras de melhorias naquele apartamento, muito menos na cozinha.  
         Ao ver as imagens, fiquei a me perguntar: onde colocaram os tais R$ 770.000,00 que alardearam terem sido gastos na reforma do tríplex?
         Nossa Senhora das Farsas, já ouvi falar da cultura de superfaturar orçamentos nos contratos entre empresas e Estado, mas dessa vez, foram longe demais!
         Querido Lula, além de ser ultrajante, é uma vergonha para nós, o povo brasileiro, constatarmos que a nossa justiça te condenou a 12 anos e 1 mês de prisão, em regime fechado, sem haver um documento sequer que comprove ser você o proprietário do tal tríplex; sem você ou a tua família ter morado ou passado um único fim de semana  por lá; sem as chaves estarem contigo ou com a sua família; sem haver comprovantes de valores das referidas empresas depositados em sua conta bancária; sem vídeos ou gravações que constatem ser aquele apartamento um patrimônio teu ocultado!
         Essa vergonha da justiça brasileira aumenta ainda mais agora, ao vermos as imagens do tal tríplex e ao percebermos que, pelo tipo de construção, pela qualidade do material, qualquer trabalhador de renda média poderia adquirir um apartamento daquele. 
         É muito vergonhoso para nós, o povo brasileiro, a tua condenação também ter sido embasada nos tais valores destinados às reformas, reformas essas que não se manifestam nas imagens do interior do tríplex.
         Envergonha muito saber que sem haver nenhuma materialidade do crime imputado a ti, você foi condenado em primeira e em segunda instâncias e que a ti foram negados todos os recursos. Envergonha verificar que a cidadania brasileira, hoje, não é nem mesmo uma cidadania de papel.
         Querido Lula, as fotos e os vídeos do tal do tríplex do Guarujá estão circulando pela rede, revelando a farsa e a cara de pau do golpe contra o Estado Democrático de Direitos.
         Vou ficando por aqui, meu querido presidente. Como sempre, terminarei com um poema: Hoje, envio um do poeta brasileiro nascido em Curitiba e que deixou esse nosso planeta em 1989: Paulo Leminski:


Na Luta de Classes
Paulo Leminski

Na luta de classes
todas as armas são boas
pedras
noites
poemas


Com carinho,

Luzia Cardoso LULA


O vídeo feito pelo MTST mostrando o triplex atribuído a Lula: 
https://www.facebook.com/100001110302679/videos/1693545717359089/


Obs: Enviada por e-mail: escrevaparaolula@gmail.com

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Cartas para Lula (02)

Cartas para Lula:
Diretório do Partido dos Trabalhadores - Para Luís Inácio Lula da Silva. 
Alameda Princesa Izabel, 160, São Francisco, Curitiba-PR.
CEP: 80410-110





Cartas para Lula (02)




Caro companheiro Lula, para sempre Presidente do Brasil,

Desejo que, na medida das possibilidades dessas paredes frias, você esteja bem. Estamos aí contigo, companheiro, pode acreditar.

Esta é a minha segunda carta. Espero que a tenha recebido a primeira, companheiro. Inicialmente, divulgaram o endereço dessa Superintendência para o envio das cartas. Depois, reavaliaram e orientaram enviar para a Sede do PT de Curitiba. E assim estou fazendo com esta aqui.

Companheiro, muita gente está escrevendo para você. A militância está montando stand perto de estações de metrôs e trens e se disponibilizando ao povo em recolher as cartas para te entregar. Está muito bonito!

Percebo que, a cada dia, aqueles que acreditavam que o que se passava em nossa terra era um movimento moralizador, em prol do Brasil, começa a perceber que é um golpe. Não um golpe apenas contra o PT, contra as esquerdas e contra você e Dilma, mas um golpe contra cada um de nós, trabalhador e trabalhadora. Um golpe contra o povo brasileiro.

Sim, o povo começa a sentir que não tem emprego, não. Surgem alguns bicos, aqui, al e acolá, pois o patronato adorou essa história de trabalho intermitente, de ter o trabalhador a sua disposição sem ter que arcar com férias, licenças médicas, licença maternidade e descanso semanal. Sem dúvida alguma, essa contrarreforma trabalhista é mel com mamão para quem quer viver à custa da exploração do trabalho da gente!

E veja o tamanho descaramento dessa turma golpista: apesar dos índices crescentes de doenças antes controladas (tuberculose, febre amarela, AIDS, entre outras), doenças relacionadas à pobreza, à precariedade de vida, à desinformação - e que necessitam da ação comprometida e séria do Estado, por meio de um Sistema de Saúde público, universal, igualitário e integral – no último dia 10, foi realizado um fórum visando construir um novo Sistema Nacional de Saúde. Nesse colóquio, companheiro, o empresariado do complexo médico-hospitalar era a maioria.  Pretendem colocar o Conselho Nacional de Saúde Suplementar com o mesmo peso do Conselho Nacional de Saúde, diminuindo, assim, o controle popular.

Claro que nessa nova proposta, a área será escancarada para a exploração capitalista e a Saúde do povo reafirmada como mercadoria. Institucionalizarão o Sistema de Saúde estratificado: sucata, papelão, papel, lata, alumínio, bronze, prata, ouro e diamante!

E, como a atenção integral ao povo brasileiro como um todo sai cara e como mesmo comprando esses planos, a maioria do povo não terá condições de arcar com os custos de uma CTI pelo tempo que necessitar, sabemos de onde virá o dinheiro para o financiamento desse sistema privado, não sabemos?

Pois é, sairá do Estado. Significa que sairá da fonte que se alimenta dos impostos, taxas e loterias que são pagas pelo povo. Nós, o povo brasileiro, pagaremos duas vezes por um atendimento nada integral, nada igualitário, nada universal.

Companheiro Lula, pretendo, sempre que escrever, também te enviar poesias. Como te falei na mensagem anterior, você anda inspirando poetas daqui e do além mar. Hoje, eu te envio uma de outro poeta português. O poema de hoje é de José-Augusto de Carvalho, poeta lá do Alentejo, que lutou na Revolução dos Cravos e foi membro do Partido Comunista Português, PCP. Não sei se, nesta poesia, você foi diretamente a sua fonte de inspiração, mas certamente foram a injustiça e a perseguição política. Ou seja, indiretamente, a poesia também se refere a ti e a situação em que vive hoje.


Um carinhoso abraço,


Luzia Cardoso LULA


Link do poema de  José-Augusto de Carvalho, Das manhãs… 
https://vivoedesnudo.blogspot.com.br/2018/04/03-o-meu-rimanceiro-das-manhas.html



(Destinatário: Luiz Inácio Lula da Silva
Superintendência da Polícia Federal
Rua Professora Sandália Monzon, 210.
Santa Cândida, Curitiba, Paraná – Brasil.
CEP: 82640-040)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Cartas para Lula - 01


Cartas para Lula:


Diretório do Partido dos Trabalhadores,
Para Luís Inácio Lula da Silva.
Alameda Princesa Izabel, 160, São Francisco, Curitiba-PR.

CEP: 80410-110


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, multidão e atividades ao ar livre
Foto de Francisco Proner Ramos

Rio de Janeiro, 09 de abril de 2018

Exmo. Sr. Luiz Inácio da Silva, Lula, Para Sempre Presidente do Brasil

Companheiro, já na adolescência, comecei a sonhar o mesmo sonho que se gestava nas Greves do ABC, e no Movimento pela Redemocratização do Brasil.
Eu me tornei adulta na luta pela Reforma Sanitária, pela criação do SUS – Sistema Único de Saúde, e do SUAS – Sistema Único de Assistência Social.
Estive nas ruas, companheiro, mesmo sem ser filiada ao PT ou a algum partido político, militando e panfletando, espontaneamente, para todas as tuas candidaturas, bem como para a de outros companheiros e companheiras, que concorriam ao governo estadual, municipal e ao parlamento e que sonhavam o mesmo sonho nosso: um país onde todos tenham o mesmo direito de sonhar e com as mesmas condições para caminhar além da linha do horizonte.
Cada eleição que você perdia, companheiro, era como se uma nuvem densa e cinzenta caísse sobre mim. O que me levantava era saber que acima daquela nuvem havia um sol tão forte que ela, em algum momento, se dissolveria e daria espaço ao um infinito azul.
E esse azul se apresentou em 2002: Companheiro Lula, lá! Nosso primeiro presidente trabalhador! Trabalhador, como nós!!!
Sabe, companheiro, muito te critiquei ao longo de teu governo. Nunca concordei com as conciliações partidárias, com não garantir o SUS pleno em todos os seus princípios... mas deixemos isso para depois, pois, no balanço, companheiro, nenhum presidente vindo das classe patronais fez sequer a milésima parte do que você fez para todos nós, o povo brasileiro.
Companheiro Lula, por cartas também iremos estar presentes contigo, dentro dessas quatro paredes.
Estamos contigo, companheiro, em teu coração e você está conosco, em nossos corações e mentes, nas nossas orações, meditações, enfim, nos nossos desejos de que o sol novamente se imponha e revele o lindo céu azul anil.
Estarei sempre escrevendo para você, companheiro Lula.
Queria te enviar um poema. Sabe, companheiro, você anda inspirando os poetas e as poetas desta nossa terra brasileira (sim, ela é nossa, companheiro). Você anda inspirando também os e as poetas do além mar.
Escolhi um poema que muito me emocionou e que foi escrito pelo poeta português Fernando Fitas, “Teu Nome Será Apenas Povo”.

Um abraço fraterno,

Luzia Magalhães Cardoso



Link do poema enviado: Fernando Fitas, Teu Nome Será Apenas Povo - https://silenciovigiado.blogspot.com.br/2018/04/teu-nome-sera-apenas-povo.html?spref=fb

(Destinatário: Luiz Inácio Lula da Silva
Superintendência da Polícia Federal
Rua Professora Sandália Monzon, 210.
Santa Cândida, Curitiba, Paraná – Brasil.
CEP: 82640-040)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Escutas



Escutas


O decreto de intervenção federal no Rio de janeiro, com a nomeação de um general do Exército para assumir o comando da Segurança Pública do estado e o resultado de algumas enquetes que demostram um percentual importante de pessoas acreditando que essa intervenção irá por fim à onda de violência me remetem às vozes de algumas manifestações, coletivas e isoladas, nos anos que antecederam o golpe.
Naqueles anos, as mídias oficiais e alternativas apresentavam vídeos e fotos com pessoas solicitando a intervenção militar para pôr termo à corrupção e à violência urbana. Saudosistas do período do governo militar que, decerto, não viveram na pele o terror dos desaparecimentos, das extradições e da tortura, insistindo na negação das mazelas daquele período (escândalos de corrupção, escassez de alimentos, inflação e desemprego). Alguns jovens, talvez filhos desses saudosistas também reverberam as vozes de seu grupo social. Estes não fazem sequer ideia da violência e crueldade dos tempos passados.
Passado o espanto, busco entender o que queriam, de fato, dizer aquelas vozes que se sentiam ameaçadas pela democracia e por políticas que promovam a justiça social. O que querem que ouçamos as pessoas que confundem equidade com ditadura comunista¿
Chegando mais perto, percebemos que algumas daquelas pessoas não pensam duas vezes na hora de insinuar o “cafezinho”, quando são pegos infringindo as leis de trânsito. Vemos muitas ultrapassarem pelo acostamento, cortando pela direita, costurando, jogando o farol alto em quem está a sua frente.
Em alguns momentos, quando olhamos de perto, vemos os que adotam a prática de levar idosos e crianças para bancos e supermercados a fim de usufruírem de seus direitos especiais. Numa praça de alimentação cheia, observamos que não se inibem em ocupar uma mesa quando ainda nem compraram o alimento que vão comer, deixando outros com a bandeja na mão de pé.
Nos transportes coletivos, alguns sentam em bancos preferenciais não levantando, de forma alguma, para aqueles que têm direito, gestantes, pessoas com criança de colo, idosos, obesos e pessoas com deficiência.
Algumas são baloeiros. Soltam balões, apesar dos incêndios e de ser prática proibida. Tantos andam pelas calçadas com seus cachorros e deixam, por lá, os seus dejetos. Ou compram animais silvestres para o seu próprio deleite. Há os que não pensam duas vezes antes de ofender, de enfiar um soco na cara ou mesmo de puxar uma arma, num conflito qualquer, frente àqueles que os contrariam em suas relações em sociedade.
Verificamos que alguns se envaidecem em alardear as garantias do padrinho que lhes deu acesso a empregos, cargos e bons salários. Têm aqueles que defendem o Estado mínimo e a privatização das instituições públicas, mas se beneficiam, ou se beneficiaram, das mesmas. Muitos, tendo recursos para arcar com os custos da educação, por exemplo, não se constrangem em usufruir da rede pública, tampouco, abrem mão de seus empregos ou cargos na máquina estatal para viverem nas ondas do mercado privado.
De perto, vemos que muitos que defendem o ordenamento neoliberal e governos autoritários têm teto de vidro. Daí, surge a pergunta: o que, de fato, estão reivindicando essas pessoas?
Se refletirmos sobre a prática social de muitas dessas pessoas, concluímos que há deficiência de limites. Muitas são egocêntricas e não pensam na coletividade. Não sabem esperar, ceder, dar lugar, nem ouvir não. Seus valores e princípios são frágeis. Por isso, talvez, ao intuírem a ausência de limites em si mesmos, reivindicam governos autoritários, desejando a ordem através do medo. Talvez, queiram apenas limites externos explícitos e supervisionados.  
Ou, talvez, não seja nada disso. Talvez, muitas dessas pessoas queiram apenas manter uma fachada ilibada, defendendo a própria falta de freios. Talvez, queiram apenas o rigor para os outros, enquanto desfrutam de regalias imorais, por meio de carteiradas, do apadrinhamento, da arrogância, do suborno, da mão grande e da violência. 


Luzia M. Cardoso

sábado, 14 de outubro de 2017

PELO DIREITO À DIGNA EXISTÊNCIA

Após o desfecho do golpe contra o Estado de Direito do Brasil, em 31 de agosto de 2016, o brasileiro se vê no olho do furacão. Como todos, ele não tem origem no continente que arrasa e estudiosos indicam a probabilidade de ter se formado no Atlântico Norte. Chegando no Brasil, ganhou fôlego nas forças que circulam do Planalto Central a São Paulo, impulsionando os ventos agrotóxicos do Centro-Oeste, Norte e Sul.

O furacão chega quebrando a Constituição Federal brasileira, lançando areia nos olhos dos incautos, ressoando o canto da sereia de que a flexibilização das leis trabalhistas aumentará a liberdade do trabalhador na negociação com o empregador, omitindo a desigualdade presente. As nuvens que se formam a muitos causam a ilusão de que a Reforma Previdenciária garantirá o direito de todos os trabalhadores à aposentadoria, omitindo que serão poucos os que conseguirão se manter em atividade
laboral e segurados do INSS até a idade e o tempo de contribuição definidos. Tal qual artimanha de sereia, o que se ouve são juras de farta oferta de trabalho após aprovadas as reformas, mas esse furacão chega ceifando direitos sociais, trabalhistas e previdenciários que foram conquistados pelo povo brasileiro após muitas lutas e ao longo de décadas de história.

Como todo furacão, causa destruição e confusão. Diante do caos e do terror, falsos profetas se manifestam buscando fortalecer suas igrejas, arrebanhar ovelhas atordoadas para prosperarem por meio de dízimos. Saem daí correntes com fortes argolas que visam, pela ignorância, prender as asas da esperança e da liberdade ao alarde da proteção integral do ser humano a partir de sua concepção, o nascituro.

Quem desconhece a íntegra do Estatuto do Nascituro, Projeto de Lei 478\2007, poderá inferir que ele garantirá condições dignas de vida para todos os potenciais pais e mães, aqueles que, um dia, poderão conceber, gerar e cuidar de uma nova vida humana. Pensará em saneamento básico, política habitacional, reforma agrária, ampla oferta de serviços de saúde com a garantia dos cuidados em todos os níveis (da prevenção à alta complexidade), de forma universal, igualitária e com assistência integral. Poderá imaginar que o Estatuto trata do direito à creche, escolas de ensino fundamental, médio e superior, do direito dos pais à licença de trabalho para os cuidados dos filhos doentes, de ampla oferta de emprego, com salários que lhes acessem a outros serviços e bens, tão necessários à proteção integral de todo e qualquer ser humano.

Ledo engano, o Estatuto do Nascituro não enxerga a necessidade da garantia de condições dignas de vida àquelas que conceberão, gerarão, amamentarão e cuidarão de um novo ser humano. Antes disso, o Estatuto ignora-as. Pior ainda, trata as mulheres que ofertarão o ventre para a formação do novo ser humano como um objeto inanimado, um útero incubador.

Observa-se a negação da condição de ser humano e de cidadã de direitos à mulher já no parágrafo único de artigo 3º: “O nascituro goza da expectativa do direito à vida, à integridade física, à honra, à imagem e de todos os demais direitos da personalidade. ” E como o nascituro é entendido a partir da concepção, o seu “direito à expectativa de vida” prevalecerá ao direito à integridade física, emocional e psíquica da mulher, mesmo em caso de estupro.

O direito do embrião prevalecerá às custas do sacrifício da vida da gestante, conforme o artigo 4º da referida Lei que assegura “ao nascituro, com absoluta prioridade, a expectativa do direito à vida (...).” 

Os artigos 12º e 13 sobrepõem o direito do nascituro aos da saúde de uma mulher vítima de violência considerando ser dano a ele a interrupção da gestação por “ato delituoso cometido por algum de seus genitores” ou “concebido em um ato de violência sexual “. O direito do embrião prevalecerá ao direito da gestante mesmo nos casos em que, devido a alguma patologia, a gestação ou a sua evolução leve a mulher à morte. E, conforme os artigos 23º, 24º e 29º, qualquer médico que apontar a necessidade de interrupção terapêutica da gestação poderá ser acusado de fazer “apologia ao aborto”, sujeito à processo judicial e à pena.

Quem elaborou o Estatuto do Nascituro, bem como aqueles que o defendem, parecem cegos às taxas e às causas da morte materna e ao número de recém-nascidos órfãos de mães antes mesmo de completarem um ano de vida. Parecem cegos ao desespero de mulheres diante do útero que se projeta em decorrência de estupro. Fazem ouvidos moucos ao pranto de famílias diante das altas probabilidades de morte caso ela leve a gravidez adiante.

Antes de garantir direitos de possível existência a um embrião, a redação da Lei aqui tratada fere direitos de seres humanos nascido e que lutam por sua existência. Portanto, torna-se imprescindível que a sociedade discuta as consequências sociais e econômicas do atual texto do Estatuto do Nascituro, garantindo o respeito aos direitos dos seres humanos que podem vir a gerar outros futuros.

Luzia Magalhães Cardoso

(Parte dsse artigo, adaptado às normas da Revista Carta Capital, está publicado sob o título O Estatuto do Nascituro e o útero incubador, disponível em https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-socio/o-estatuto-do-nascituro-e-o-utero-incubador )