Obra licenciada por Creative Commons

Licença Creative Commons
Este obra foi licenciado sob uma Licença Creative Commons.

sábado, 15 de agosto de 2026

A festa julina do condomínio Hortênsia

 


A festa julina do condomínio Hortênsia


Um mesmo acontecimento não é vivido nem percebido da mesma forma por todas as pessoas que dele participam. Nesta festa julina, quatro pessoas, de gerações distintas e em lugares diferentes, revelam as suas formas de vivê-la. 




Aos olhos de Pedrinho, 8 anos de idade


Quantas bandeirinhas! O vento passa entre elas, balançando e misturando as cores e traz o frio, também!

Olha lá o André com uma blusa igual a minha: quadriculada e com remendos coloridos.

Coitadinhos dos caipiras, todos remendados e com chapéu de palha velho e desfiado nas pontas. Eles devem ser muito pobres. Hummm, mas se forem muito pobres, como conseguiriam fazer uma festa com tanta coisa gostosa: milho assado, pipoca, canjica, caldo verde, salsichão.

Oba, tem algodão doce! Vou lá pegar o meu. Rosinha já está na fila.

O pula-pula já está montado! Renata já está se esbaldando.

Ah, não! Tem quadrilha. Tenho vergonha de dançar essa dança capira. Sei não...

Xiiii, lá vem a minha mãe com curau. Não gosto, não. Parece mingau. Já sou um homem para ficar comendo mingau aqui embaixo.

Acho que ela me viu!


Aos olhos do Senhor Caetano, 78 anos


Que som alto! Pelo amor de Deus! Todo ano é a mesma coisa! Contrataram DJ e buffet?! Se bem que o preço cobrado por pessoa não foi alto... É, até que não está mal, não.

Gente, esqueci como faz frio aqui embaixo de noite! A fila do caldo verde já está enorme. A quadrilha ainda nem começou e já começam a esquentar um segundo panelão. Valei-me, Senhor. Que cheirinho de canjica!

Minha mãe sempre fazia canjica nessa época do ano: leite, leite de coco, coco ralado e ela fazia questão de deixar uns pedacinhos de coco também. O cravo e a canela em pau eram ingredientes sempre presentes. Também não podia faltar a canela em pó salpicada ao final. 

Essa caneca de canjica quentinha tem aroma de infância. Vem servida com carinho de mãe.

Olha lá a Meirinalva, alegre como sempre. Xiii, eu mal sentei e já vem ela com a sua roupa colorida me tirar para ser seu par na quadrilha.  Ai minha coluna!


Aos olhos do porteiro do Condomínio


- Boa noite, Sr. Santos! Pode abrir o portão para mim? A festa está animada lá dentro, não é?

Eu respondo e vou respondendo a essa mesma pergunta durante toda a noite. 

Esse cheiro de espetinho me deixou com fome. São 20h:15min. 

- Boa noite, seu Santos, bora abrir a festa! Trouxe um caldo verde para te manter acordado. Kkkkk

Clementino, o velho e bom amigo. Sim, a noite será animada e bem farta. Faz frio aqui. Poderiam tocar um forrozinho.

         -     Cadê a sanfona, seu Clementino?

        -     Está lá no arraiá, seu Santos? Não vai tocar?

       -     Ah, primeiro matar a fome que saco vazio não para em pé.


    "Kkkkkkkk"


Aperto o botão do elevador para a senhora do 503, que chega cheia de bolsas.

        -     Boa noite, Sr. Santos! Grata!

Novamente esqueceram o portão do estacionamento aberto. Penso que brincam com o controle remoto. Não é possível!!! 


[Som de sanfona. Entram a voz, o triângulo e a viola].


Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João, eu perguntei a Deus do Céu porque tamanha judiação.”



Aos olhos da organizadora


Aquela extensão precisa ir mais para o canto. Cadê a moça da pipoca? Ainda não chegou? É preciso espalhar umas coletoras de lixo pelo pátio para que amanhã seja mais fácil limpar. Ficou bem legal o palco para os músicos. Ah, lá está o DJ. Fiquei preocupada quando ele disse que viria de outra festa.

Vixe, como o pátio está cheio! Não é que a vizinhança veio mesmo!

        - Boa noite, vizinhos e vizinhas! 


“Boa noite!”


- Que alegria ver todo mundo aqui. Vocês capricharam, hein! Vieram na beca.


“Kkkkkkkkkkk Olha quem fala! A tua roupa arrasou!”


   - Comadre, dessa vez você também aderiu à caipira. Está lindíssima!

    - Vamos aquecer, minha gente. Bora começar o arrasta pé. Cada um escolhendo o seu par e entrando na ciranda.


“Aqui, quem é casado não escolhe seus pares. Kkkkkk”


  Clementino, puxa o som, Marquinhos pega a viola, Raimundo, o triângulo.


“Anariè!”


Os músicos também capricharam no vestuário! Estão todos muito coloridos. Rsrsrs! Lá vem João!

        - Bora lá, Catarina! Dê o braço aqui e venha dançar comigo! Com a tua licença, primo!


“Balancê!”


Luzia Magalhães Cardoso