Cidadãos de bem
Segunda-feira, 5h da manhã. Subo a escada da estação. Mostro a minha carteira de identidade para a caixa e recebo o bilhete gratuito. Desço e me dirijo para a marcação do vagão feminino. Depois de uns 15 minutos, o aviso:
- O trem chegará na estação em cinco minutos.
O trem pára. Abarrotado de gente: homens, mulheres, jovens. Já me sentindo um cartão, deslizo entre os corpos até uma coluna de alumínio. Entre falas e sons, uma conversa prende minha atenção.
Sentadas, lado a lado, duas mulheres, uma com cerca de cinquenta e poucos anos, a outra um pouco mais jovem. A primeira usava jeans, camiseta e chinelos de dedos. Os cabelos trançados no estilo nagô. A segunda, uma bermuda bege, blusa de malha floral vinho, sandálias tênis, também vinho. Os cabelos presos ao alto, com uma faixa larga. As duas sorriam bastante.
Conversam. Uma contava a sua rotina de Auxiliar de Serviços Gerais em uma empresa de supermercados, a outra falava sobre o seu tempo de trabalho como cozinheira de uma família moradora dos Jardins.
Diziam que teriam que fazer baldeação para chegarem aos seus locais de trabalho, após descerem na Estação Oscar Freire.
Eu também faria baldeação do trem para o Metrô.
A que trabalhava em casa de família revelava que o fazia em regime de residência. Ficava lá de segunda a segunda, indo para casa quinzenalmente: carteira assinada férias, décimo terceiro, INSS. Na falta da diarista, dá conta de suas tarefas. Também auxilia o trabalho dos faxineiros. Ganha um salário e meio. A outra diz que ganha um salário como Auxiliar de Serviços Gerais. A outra diz que é cozinheira, contratada para confeccionar o almoço e o jantar - e também os pratos a serem servidos em recepções e festas, quando fica em atividade até o fim dos eventos. Para isso, ganha mais duzentos reais.
Seguiam a viagem conversando.
A cozinheira contava que nos finais de semana, seus patrões saem em família no SUV Range Rover Evoque prata 2026. Ouviu quando disseram que o veículo tem piloto automático, câmera 3D, teto solar, ar condicionado, Wi-fi, Android Auto, entradas USB, sistema de infoentretenimento e diz:
- Todos os chamam pelo sobrenome: a família Greenyellow.
Sr Green tem um closet com roupas de modelagem: ternos, blazers, camisas sociais, calças diversas, em linho, cashmere, algodão egípcio. Diz que observa que usa cores neutras e que os trabalhadores domésticos precisavam arrumá-lo diariamente, mantendo a ordem das cores em degradê, sempre bem passadas.
Falou que o closet da Sra. Yellow tem muitos vestidos, saias, blazers, calças compridas, calçados, caixas de jóias e que nas suítes dos filhos do casal também havia closets individuais, que eram arrumados pelas diaristas.
Sabia que Sr Green era empresário, sócio majoritário de um grande banco da capital. Via-o sair para o seu trabalho: calça de alfaiataria, camisa social, colete acolchoado tipo puffer, sapatênis - alguns dias, usava os de couro, em outros, os de tecidos tecnológicos.
Via o vigilante uniformizado se postar à frente da porta da garagem e acompanhar o Sr. Green sair com o seu Suv Prata. No protão do condomínio, da guarita, um outro vigilante também uniformizado aciona o comando para abrir a cancela.
Contava que a esposa do Sr. Green tinha a franquia de uma joalheria conhecida, localizada na Rua Barão de Paranapiacaba e que, mensalmente, ia lá. Ouvia a patroa dizer que tinha uma gerente de confiança, há anos trabalhando para ela.
A patroa ia à joalheria para ver o balancete e conferir as vendas, o estoque. Quando ia, contava ao marido a revista que fazia dos funcionários: uniformes e a apresentação. Todos alinhados se postavam alinhados à sua frente, lado a lado, mãos para trás, cabeça erguida e um cumprimento sutil, que ela retribuía com a cabeça.
Ria ao falar que a sra. Yellow contava todos esses detalhes durante os almoços de família, também nos chás e recepções que promovia em sua residência.
Os patrões têm um casal de filhos jovens que frequentaram o colégio tradicional da cidade, falavam duas línguas estrangeiras e passavam férias no exterior.
Baixando o tom da voz, disse que eles tinham o hábito de pagar os bens de valor que adquiriam com dinheiro em espécie. Não realizavam transações bancárias para valores altos. Era uma tradição da família.
Ela soube que à época da compra da mansão em que os Greenyellow moram, eles pagaram em cash. E seues patrões falam que o terreno tem mais de mil metros quadrados só de área plana. Falam muito tabém sobre o acabamento: mármore italiano e pé direito duplo.
Ela fala sobre a sua rotina de atravessar aquelas portas da mansão: altas e enormes. Gosta de se ver nos grandes vidros das janelas.
Seguia a viagem descrevendo a residência onde trabalhava: inúmeras suítes, cozinha ampla, área verde privativa, living, piscina aquecida, espaço gourmet, sauna, salão equipado para atividade física. Sabia que aquela casa era toda automatizada, respondendo ao comando da voz. As paredes claras, mobiliário em sobretom, uma ou outra peça em cores contrastantes, além de várias obras de arte.
Além dela, cuidavam da família Greenyellow duas diaristas, uma dupla de trabalhadores de empresa contratada para faxinas quinzenais, seis vigilantes em rodízio, piscineiro, jardineiro, paisagista, trainee, massagista, psicanalistas, yogue, orientador espiritual, médicos holistas, entre outros.
Ouvia as minhas duas companheiras de vagão conversarem, entre paradas, solavancos e empurrões das pessoas que precisavam saltar do trem. O sol ainda morno lá fora e eu, dentro do trem, escutando a história da família Greenyellow.
Puxando um saco de biscoitos da bolsa, minha colega de viagem revelava que seus patrões defendem o armamento do cidadão de bem e que possuem armas em casa - fechadas em caixas com cadeado e guardadas em sala própria. Disse que concorda com eles: era preciso saber se defender, a si mesmo e a propriedade que conquistaram.
Também concorda quando falam sobre o Bolsa Família. Esticando a coluna nas costas do banco, limpa os farelos de biscoitos caídos em sua roupa. Olhando a colega nos olhos, disse:
- Nunca precisei do Bolsa Família. Sou forte e posso trabalhar. Minha mãe cuida de meus filhos.
Disse que nasceu lá, onde mora, em Higienópolis e que sua mãe veio de Pernambuco ainda jovem, quando passou a trabalhar como doméstica, morando no local, também na região dos Jardins. Seu pai era pedreiro e trabalhava em empreitadas.
A filha dos patrões passou para uma universidade pública. Vai cursar medicina. Disse que ela foi muito bem classificada na prova do ENEM; e que, ouviu dizer que por eles terem um tio tetravô negro, a menina pôde concorrer às vagas de cotas raciais.
Dobrando a embalagem vazia do biscoito e guardando em sua bolsa, disse que ouviu falar que um dos sobrinhos dos patrões, saindo da balada de madrugada e dirigindo em disparada, atropelou um morador de rua; que tudo foi explicado na delegacia; que ele voltou para casa sem um arranhão. O atropelado foi socorrido e atendido em um hospital público. Fraturou o fêmur, pelo que soube. Semanas seguintes, ouviu o filho do patrão dizer que viu o homem pelas ruas da cidade. Exclamou:
- Daqui a pouco, é atropelado novamente.
Viu jornalistas rondando a casa. Soube, por seus colegas do condomínio, que eles procuravam por um funcionário público. Ouviu dizer que na instituição onde trabalhava ele não era conhecido. Naquele dia à noite, também ouviu seus patrões falarem com o filho, assessor parlamentar, que era preciso se fazer conhecer.
Disse que há um escândalo financeiro que está envolvendo o patrão - transações internacionais que resvalam no governo local. Um dia desses, disse, viu na tv os advogados dos Greenyellow explicarem que precisavam ler os autos do processo.
Ao ouvir a voz do Centro de Controle Operacional anunciar a estação onde eu teria que descer, empurrando com o meu corpo a barreira de gente entre mim e a porta do trem, ainda pude ouvir:
- Gosto muito da família Greenyellow. São todos cidadãos de bem.
Luzia Magalhães Cardoso
Rio de Janeiro, junho, 2026
#Cronicascotidianas




