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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cidadãos de bem

 



Cidadãos de bem


Segunda-feira, 5h da manhã. Subo a escada da estação. Mostro a minha carteira de identidade para a caixa e recebo o bilhete gratuito. Desço e me dirijo para a marcação do vagão feminino. Depois de uns 15 minutos, o aviso:

        - O trem chegará na estação em cinco minutos.

O trem pára, abarrotado de gente: homens, mulheres, jovens. Já me sentindo um cartão, deslizo entre os corpos até uma coluna de alumínio. Entre falas e sons, uma conversa prende minha atenção.

Sentadas, lado a lado, duas mulheres, uma com cerca de cinquenta e poucos anos, a outra um pouco mais jovem. Uma usa jeans, camiseta e chinelos de dedos. Os cabelos trançados no estilo nagô. A outra, bermuda bege, blusa de malha floral vinho, tênis, também vinho. Os cabelos presos ao alto, com uma faixa larga. As duas sorriem bastante.

Conversam. Uma conta a sua rotina de Auxiliar de Serviços Gerais em uma empresa de supermercados, a outra fala sobre o seu tempo de trabalho como cozinheira de uma família moradora dos Jardins.

Dizem que farão baldeação para chegarem aos seus locais de trabalho, após descerem na Estação Oscar Freire.

Eu também farei baldeação do trem para o Metrô. 

A que trabalha em casa de família revela que o faz em regime de residência. Fica lá de segunda a segunda, indo para casa quinzenalmente: carteira assinada férias, décimo terceiro, INSS. Na falta da diarista, dá conta de suas tarefas. Também auxilia o trabalho dos faxineiros. Ganha um salário e meio. A outra conta que ganha um salário como Auxiliar de Serviços Gerais. A primeira é cozinheira,  contratada para confeccionar o almoço e o jantar - e também os pratos a serem servidos em recepções e festas, quando fica em atividade até o fim dos eventos. Para isso, ganha mais duzentos reais.

 Seguem a viagem conversando. 

A cozinheira conta que, nos finais de semana, seus patrões saem em família no SUV Range Rover Evoque prata 2026. Ouviu quando disseram que o veículo tem piloto automático, câmera 3D, teto solar, ar condicionado, Wi-fi, Android Auto, entradas USB, sistema de infoentretenimento e diz:

- Todos os chamam pelo sobrenome: a família Greenyellow. 

Sr Green tem um closet com roupas de modelagem: ternos, blazers, camisas sociais, calças diversas, em linho, cashmere, algodão egípcio. Diz que observa que usa cores claras e que os trabalhadores domésticos precisam arrumá-lo diariamente, mantendo a ordem em degradê, sempre bem passadas. 

Falou que o closet da Sra. Yellow tem muitos vestidos, saias, blazers, calças compridas, calçados, caixas de jóias e que nas suítes dos filhos do casal também há closets individuais, arrumados pelas diaristas.

Sabe que Sr Green é empresário, sócio majoritário de um grande banco da capital. Costuma vê-lo sair para o seu trabalho: calça de alfaiataria, camisa social, colete acolchoado tipo puffer, sapatênis - alguns dias, usa os de couro, em outros, os de tecidos tecnológicos.

Vê sempre um vigilante uniformizado se postar à frente da porta da garagem e acompanhar o Sr. Green sair com o seu Suv Prata. No portão do condomínio, da guarita, um outro vigilante, também uniformizado, aciona o comando para abrir a cancela.

Conta que a esposa do Sr. Green tem a franquia de uma joalheria conhecida, localizada na Rua Barão de Paranapiacaba e que, mensalmente, vai lá. Ouviu a patroa dizer que tem uma gerente de confiança, há anos trabalhando para ela. 

A patroa costuma ir à joalheria para ver o balancete e conferir as vendas, o estoque. Quando volta, costuma contar ao marido a revista que faz de seus funcionários: uniformes e apresentação. Todos, alinhados, se postam à sua frente, lado a lado, mãos para trás, cabeça erguida e um cumprimento sutil, que ela retribui com a cabeça.

Ri ao falar que a sra. Yellow conta esses detalhes durante os almoços de família, também nos chás e recepções que promove em sua residência.

Os patrões têm um casal de filhos jovens que frequentaram o colégio tradicional da cidade, falam duas línguas estrangeiras e passam as férias no exterior. 

Baixando o tom da voz, diz que eles têm o hábito de pagar os bens de valor que adquirem com dinheiro em espécie. Não realizam transações bancárias para valores altos. É uma tradição da família. 

Ela soube que à época da compra da mansão em que os Greenyellow moram, eles pagaram em cash. Os patrões falam que o terreno tem mais de mil metros quadrados só de área plana. Falam muito também sobre o acabamento: mármore italiano e pé direito duplo. 

Ela conta sobre sua rotina, atravessando aquelas portas da mansão, altas e enormes. Gosta de se ver nos grandes vidros das janelas. 

Segue a viagem descrevendo a residência onde trabalha: inúmeras suítes, cozinha ampla, área verde privativa, living, piscina aquecida, espaço gourmet, sauna, salão equipado para atividade física. Sabe que aquela casa é toda automatizada, responde ao comando da voz. As paredes claras, mobiliário em sobretom, uma ou outra peça em cores contrastantes, além de várias obras de arte.

Além dela, cuidam da família Greenyellow duas diaristas, uma dupla de trabalhadores de empresa contratada para faxinas quinzenais, seis vigilantes em rodízio, piscineiro, jardineiro, paisagista, trainee, massagista, psicanalistas, yogue, orientador espiritual, médicos holistas, entre outros.

Ouço as minhas duas companheiras de vagão conversarem - entre paradas, solavancos e empurrões das pessoas que precisam saltar do trem.

O sol ainda morno lá fora e eu, espremida naquele vagão, escutando a história da família Greenyellow. 

Puxando um pacote de biscoitos da bolsa, minha colega de viagem revela que seus patrões defendem o armamento do cidadão de bem e que possuem armas em casa - fechadas em caixas com cadeado e guardadas em sala própria. Diz que concorda com eles: é preciso saber se defender, a si mesmo, a família e a propriedade.

Também concorda quando falam sobre o Bolsa Família. Esticando a coluna nas costas do banco, limpa os farelos de biscoitos caídos em sua roupa. Olhando  a colega nos olhos, diz: 

- Nunca precisei do Bolsa Família. Sou forte e posso trabalhar. Minha mãe cuida de meus filhos.

Conta que nasceu onde mora, em Higienópolis, e que sua mãe veio de Pernambuco ainda jovem, quando passou a trabalhar como doméstica, morando no local, também na região dos Jardins. Seu pai era pedreiro e trabalhava em empreitadas.

A filha dos patrões passou para uma universidade pública. Vai cursar medicina. Diz que ela foi muito bem classificada na prova do ENEM; que ouviu dizer que por eles terem um tio tetravô negro, a menina pôde concorrer às vagas de cotas raciais. 

Dobrando a embalagem vazia do biscoito e guardando em sua bolsa, diz que ouviu falar que um dos sobrinhos dos patrões, saindo da balada de madrugada e dirigindo em disparada, atropelou um morador de rua; que tudo foi explicado na delegacia; que ele voltou para casa sem um arranhão. O atropelado foi socorrido e atendido em um hospital público: fraturou o fêmur. Semanas seguintes, ouviu o filho do patrão dizer que viu o homem pelas ruas da cidade. Exclamou:

- Daqui a pouco, é atropelado novamente.

Viu jornalistas rondando a casa. Soube, por seus colegas do condomínio, que eles procuravam por um funcionário público. Ouviu dizer que na instituição onde trabalhava ele não era conhecido. Naquele dia à noite, também escutou seus patrões falarem com o filho, assessor parlamentar, que era preciso se fazer conhecer.

Diz que há um escândalo financeiro envolvendo o patrão - transações internacionais que resvalam no governo local. Um dia desses, disse, viu na tv os advogados dos Greenyellow explicarem que precisavam ler os autos do processo.

Ao ouvir a voz do Centro de Controle Operacional anunciar a estação onde eu terei que descer, empurrando com o meu corpo a barreira de gente entre mim e a porta do trem, ainda consigo ouvir:

- Gosto muito da família Greenyellow. São todos cidadãos de bem. 


Luzia Magalhães Cardoso

Rio de Janeiro, junho, 2026


#Cronicascotidianas




terça-feira, 9 de junho de 2026

Ensaio híbrido após leitura

 





as [dores] crônicas ideológicas, de maria lucia macari, São Paulo, m.inimalismo, 2025



“Quando os dualismos se fundem, a realidade não é mais a mesma.”

(maria lucia macari)





    A apresentação do livro de Maria Lucia Macari não se prende a um modelo tradicional, mas a uma proposta híbrida, onde descrição, interpretação e imagem não se sucedem em etapas, mas se entrelaçam como formas simultâneas de aproximação ao texto. 

Conheci a autora no Seminário Internacional Democracia em Tempos Extremos, realizado em São Paulo, no período de 25 a 29 de maio deste ano. Um encontro mais que necessário nesses tempos desmedidos em que os próprios regimes de visibilidade do pensamento entram em disputa. 

No evento, houve também lançamentos e relançamentos de livros. Foi lá que tive contato com o pensamento de Maria Lucia pela primeira vez. Fiquei particularmente impressionada com sua apresentação. Quando iniciei sua leitura, imediatamente eu me identifiquei com o estilo de sua escrita. Uma escrita que recusa a convenção acadêmica. 

Seus estudos de doutorado foram desenvolvidos durante a pandemia de Covid-19. O percurso inclui deslocamentos entre Brasil, Cuba, México e Estados Unidos, com registros de eventos políticos e sociais citados ao longo do texto.

Os resultados estavam ali, em forma de livro, vermelho, insubordinado. A escolha por apresentar o título e o nome da autora em letras minúsculas na capa, a ausência de sumário e a não divisão em capítulos não parece somente uma questão estética, ela tensiona normas acadêmicas e a forma tradicional de se reforçar hierarquias e limites. 

A capa traz ainda o desenho de uma mariposa monarca. Solitária e sem um pedaço de uma das asas. Diante daquela imagem da mariposa monarca, lembrei que essas espécies de mariposas voam em revoada durante o dia, não à noite como a maioria das mariposas,  e ainda assim precisam de asas íntegras. 

Enquanto uma geração vai do Canadá ao México, a outra faz o caminho de volta. Sobrevoam as barreiras construídas para delimitar territórios.

A imagem da mariposa monarca ferida na capa do livro condensa uma poética de deslocamento e permanência. Muitas são as camadas de sentidos já anunciadas nessa capa, e que se desdobram pelas páginas do livro. 

O estudo tem como objeto a ideologia. Para compreendê-lo, a autora mobiliza relações entre tempo, história e memória, e espaço, lançando luz sobre os sujeitos que os habitam, desenhando uma espécie de cartografia de suas manifestações no cotidiano e na experiência histórica. Ela organiza sua escrita entre registros conceituais e discursivos, sem estabilizar uma única forma. 

Esses elementos gráficos e conceituais parecem indicar uma preocupação com formas de articulação entre dimensões que não se separam rigidamente.  

A autora analisa seus achados recorrendo a Lacan, o que aparece como um desdobramento das imagens e estruturas mobilizadas ao longo do livro. Utiliza as imagens da fita de Möbius e do nó borromeano, nas categorias analíticas de real, simbólico e imaginário. Essas categorias são articuladas às noções de continuidade e descontinuidade na leitura dos fatos ocorridos no passado, que continuam a reverberar no presente.

Precisei construí-los como formas materiais para melhor compreender a aplicação dessas estruturas no tema tratado no livro.

Em suas crônicas finais, essa lógica que já se insinuava nas imagens da capa e na organização dos conceitos se explicita: a fita de Möbius sugere continuidade entre dentro e fora, entre realidade e ficção, entre sujeito e discurso. E com o nó borromeano percebemos a ilusão de considerar que as diferentes dimensões da vida social se sustentam independentemente. 



Nesses tempos extremos em que vivemos, entendo que o livro de Maria Lucia Macari contribui para a compreensão dessa (i)realidade 



            luzia magalhães cardoso

Rio de Janeiro, junho de 2026




m.inimalismos página do livro:

https://www.editoraminimalismos.com/product-page/as-dores-cr%C3%B4nicas-ideol%C3%B3gicas-de-maria-lucia-macari


#ComACalcinhaNaMao

#VincadaNaFitaDeMobius

#TrincheiraNaoEFeed

#LevantaremosOQue

#ParaTodosTodoMenosLosHashtag


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Pra charpi

 


Pra Charpi

 

É curioso como algumas palavras se deixam conjugar, enquanto outras nos dizem: pé no breque rapaziada  são palavras-criação do mais puro cotidiano.

Ontem, eu me deparei com charpi. Confesso: não a conhecia.

Fiquei fascinada com sua origem, sua lógica, sua sonoridade... Vi preconceitos começarem a se derreter, um a um, ali à minha frente.

Cada vez mais eu me convenço de que preconceitos são ramos da ignorância: quanto menos se conhece, mais se acredita entender e mais se arroga o direito de julgar.

Ali, diante dos charpis, pensei: será que eu conseguiria charpi?

Meu filho charpiria? O mundo ficará mais belo charpido?

Logo ri com a possibilidade de acharem que estou meio chapada — embora uma coisa não tenha absolutamente nada a ver com a outra; ou não.

Vou circundando charpis vibrantes, crescendo em cores e texturas — já me sentia completamente imersa em suas linhas ascendentes, descendentes, circulares.

Já não sei mais se estou neles ou se sou mais um charpi.


Luzia M. Cardoso

RJ, 15/04/26


sexta-feira, 3 de abril de 2026

Liturgia da pilhagem: Cruzadas atualizadas

 


Liturgia da pilhagem

Cruzadas atualizadas

 

Nesta sexta-feira santa, um entre tantos dias santos, acordei com os olhos nas Cruzadas. Organizações que, com botas, cruzes, armas e mordaças, invadiam terras alheias para caçar os infiéis, aqueles supostamente aliados de Satanás. E tudo em nome de Deus.

Ares europeus pairavam nas nuvens barbadas de um deus branco implacável.

Os ungidos de Deus massacravam sem dó nem piedade tudo o que encontravam pela frente: matavam, torturavam, violavam, amaldiçoavam e pilhavam, pilhavam sobretudo tudo o que reluzisse ouro.

Dominaram em nome de Deus. Converteram em nome de Deus. E o mais perverso, os então convertidos passaram a viver em um inferno que nem mesmo Satanás imaginara. Completamente dominados, destinados ao trabalho eterno e empurrados para cantos sombrios: porões, quartos de despejo, guetos.

Mantiveram-se por séculos trabalhando, ora sob o chicote de couro, ora sob o chicote do relógio de ponto, sempre em troca de um prato de comida e um teto frágil feito papelão.

Esses filhos “recuperados” de Deus passaram a estranhar a vida nos porões enquanto outros frequentavam amplos salões e dormiam em luxuosas suítes. Inconformados, reivindicaram também a ocupação desses espaços. Chamaram-nos de rebeldes, guerrilheiros, arruaceiros – nomes dados àqueles que ousaram deixar de caber nos porões.

Décadas se passaram, e formas cada vez mais sutis de impor a bota europeia surgiam. Agora, as botas calçavam a águia de cabeça branca, garras de aço e olhos de fogo. Seu trino ecoava o termo “desenvolvimento”. Em tons filantropos, apresentava-se como disponível em ajudar aqueles “irmãos” viventes em terras ditas pouco desenvolvidas. Mas a bota continuava a revirar tudo, enquanto a águia farejava e escolhia o que drenar para o seu ninho.

Ainda assim os rejeitados resistiram. Lutaram, se reorganizaram, tentando proteger o que lhes era de direito consuetudinário. Eram filhos de Deus, herdeiros, portanto.

Hoje, em pleno século XXI, já não cola a ideia de infiéis a Deus, tampouco de filantropos desinteressados. Mas as riquezas continuam sob a mira da águia, que passa a dispensar botas e a se orgulhar de suas garras. A águia e seus filhotes querem muito mais: petróleo, neodímio, disprósio, gemas raras, além do ouro e da prata.

E como abrir as artérias dessas terras e levar todo seu sangue para os ninhos de águias?

Chamando os “infiéis” de terroristas, ou de narco-terroristas. Assim, aqueles velhos invasores, conhecidos opressores, vestem o manto de salvadores, e investidos de um “direito legítimo”, tão antigo quanto conveniente, o mesmo erguido nas Cruzadas. Invadem, destroem, matam. E nem mais rezam, agora, gargalham sobre os escombros; se fazem deuses, ditam leis e proclamam “libertação".

 

Luzia Magalhães Cardoso

03 abril de 2026

quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando a morte de mulheres vira mito




Quando a morte de mulheres vira mito


Por que chamá-la de “morte materna” esconde o rosto e a vida de quem morre
 


Há mortes que não mais deveriam acontecer e, no entanto, acontecem diariamente, sem virarem manchetes e sem pronunciamentos de governantes.


São mortes apresentadas em tabelas, gráficos, relatórios e indicadores. Mortes que ganham nome técnico, número, categoria. E, assim, seguem sem rostos, sem familiares, sem a vida que ficou interrompida.


Nomearam essa de “morte materna”. 


Uma expressão muito repetida nos textos acadêmicos e na apresentação de políticas de saúde da mulher. Contudo, ela diz muito menos do que é, na realidade. Ao chamá-la de “materna”, reduz-se a mulher que morre à mãe e à função de maternar, apagando diferentes momentos e dimensões de uma vida inteira.


Além de não incluir outras pessoas com útero, que também podem engravidar.


A Razão de Morte “Materna” insere essas mortes em uma equação e as transforma em fração: o número de mortes “maternas” para cada cem mil nascidos vivos. 

Essa equação invisibiliza cada mulher que compõe esse índice: sua história familiar, seu trabalho, suas realizações, suas relações, seus desejos... Tira o foco do seu cansaço diário e de seus medos.

Os índices não revelam que alguém existia para além da gravidez. Talvez por isso essas mortes sejam tão facilmente naturalizadas, até mesmo, mitificadas: o sacrifício de Maria, mãe de Jesus.


Os estudos mostram, no entanto, que a maioria dessas mortes poderia ser evitada: em torno de 90%.

Isso não é pouco! Isso não é detalhe técnico! Isso é um escândalo!


E, ainda assim, seguimos com as mortes de gestantes e puérperas classificadas como “maternas” sendo tratadas como um problema de ajuste técnico: melhorar o pré-natal, agilizar o atendimento, capacitar profissionais, organizar serviços.

Tudo isso é necessário, sem dúvida, mas vem se mostrando pouco suficiente.

O que os números mostram e, ao mesmo tempo, também escondem é que essas mortes têm cor, lugar no mundo do trabalho, idade e território.

Em sua maioria, quem morre por causas obstétricas evitáveis são as mulheres negras que trabalham em atividades precárias, muitas vezes informais, predominantemente da área de serviços. São mulheres jovens que vivem nas periferias das grandes metrópoles; e também em territórios quilombolas, indígenas e ribeirinhos.

Mulheres muitas vezes solteiras, únicas provedoras, vivendo onde falta tudo: transporte, saneamento, acesso, tempo, escuta profissional.

Isso não é coincidência.

É estrutura.

Contudo, a explicação que costuma aparecer é outra. Fala-se em risco biológico, em predisposição, em fatores clínicos. Como se o corpo dessas mulheres pudesse ser compreendido fora de seu contexto, como se fosse ele o principal responsável pelo desfecho da gestação.

Ou, ainda, como se o problema estivesse nas próprias mulheres, quem sabe, decorrente de seu grau de instrução, estado civil ou, ainda, de sua frágil adesão ao pré-natal.

Assim, buscam respostas na própria mulher, e não no que atravessa suas vidas.

Falam sobre questões raciais, mas são frágeis as intervenções sobre o racismo que define quem é menos ouvido.

As normas apontam a necessidade de entender o trabalho dessas mulheres, que esgota o corpo antes da gravidez começar. Mas no dia a dia da assistência ofertada, a mulher não é ouvida e quando tenta falar de seu trabalho, é entendida como quem não quer trabalhar. Muitas vezes ouve: “Gravidez não é doença. Pode voltar ao trabalho.”

Suas dores são domesticadas com analgésicos e antidepressivos. O trabalho de parto muitas vezes é induzido, e a cesariana realizada em caráter de emergência.


E a violência segue, nem sempre em silêncio.

> O cuidado que mal chega, chega tarde; muitas vezes, nem mesmo chega.


Há também uma ideia persistente de que tudo se resolve dentro do hospital. Como se a morte começasse ali.

Não, a morte “materna” não começa nas instituições. Ela é produzida no território e no trabalho, muito antes do início da gestação.

A morte por causas obstétricas começa quando uma mulher sente suas forças esvaírem nos longos trajetos de casa ao trabalho, nos transportes precários, nas longas jornadas, muitas vezes atravessadas por assédio moral, nos parcos salários, no desrespeito aos direitos trabalhistas.

Essa morte se desenvolve nas escadarias dos morros, nos becos das periferias, na casa sem infraestrutura, nas panelas vazias, nos intermináveis afazeres doméstivo e com os filhos para cuidar.

O copo da mulher colapsa na falta de tempo para o autocuidado. O tempo que sobra após o trabalho remunerado é o tempo sugado pela casa e cuidados com a família.

Essa morte produzida nas condições de vida da mulher começa a se materializar na assistência precária, no atraso do diagnóstico e dos cuidados necessários.

E se fortalece nos ouvidos moucos, olhares e falas preconceituosas dos profissionais de saúde.

Dá para perceber que há algo profundamente incômodo nos índices de morte “materna”:


       > há conhecimento suficiente para evitá-las, mas, ainda assim, os índices permanecem elevados.


Mulheres continuam morrendo por causas obstétricas evitáveis. Talvez porque evitá-las de verdade não dependa apenas de protocolos, mas exige mexer em coisas maiores:


        > nas origens das desigualdades que organizam quem vive e quem morre;


É preciso agir sobre os elementos que dão forma à vida concreta.


Enquanto isso não é feito efetivamente, segue-se com estudos, análises, relatórios, artigos... mais textos.

Sem dúvida que são importantes, contudo, insuficientes, se não forem capazes de intervir concretamente na realidade dessas mulheres que estão morrendo. Insuficientes se não provocarem mudanças.


Porque, no fim, não estamos falando apenas de “morte materna”.

Estamos falando de mortes que poderiam não acontecer.

Estamos falando do fato de que, embora evitáveis, essas mortes continuam acontecendo.

 

Luzia M. Cardoso

26/03/2026


#saudereprodutiva #direitosreprodutivos #saúdedamulher


segunda-feira, 16 de março de 2026

O dedo-duro é o travessão?

 


O dedo-duro é o travessão?


     Vivemos mudanças rápidas e intensas — aos ventos frios de uma terceira guerra mundial. Nas ondas dos likes, emojis, seguidores e haters... a cada respiro, uma pose a ser compartilhada. E nascem os influencers.    

     Postam-se fotos e vídeos... e até textos.

        Ah, os textos e os tão temidos textões.

        Pois é, para textos, textinhos e textões entra em cena o domínio da língua, culta, acadêmica ou popular, com suas gírias, códigos, conceitos, categorias teóricas e figuras de linguagens a enriquecê-la. 

        E a onda do notável, admirável e aprovável chega aos textos acadêmicos nos braços da Inteligência Artificial... 

        Ai... (Com ou sem acento agudo; com ou sem exclamação, ou com todas as duas letras em caixa alta? Fica ao critério do leitor).

        Dizem por aí que é fácil identificar um texto escrito por Inteligência Artificial.  

😏

Mas nos apps da Microsoft e outras plataformas já não há AI?

Corretor ortográfico automático no Word, gráficos no Excel, tradutores online... e por aí vai. Só não estava claro que o que estava por trás era inteligência artificial — criada, diga-se de passagem, por muito trabalho intelectual humano.

Então, agora, o que muda com o uso da AI na escrita acadêmica? 

Ela, de fato, está democratizando as revisões dos textos – até então pagas por quem podia pagar, ou feitas por parentes e amigos ocultos, quem deixam lá as suas digitais impressas.

Sim, sim! E basta conhecer os parentes ou amigos para reconhecer o seu estilo em qualquer dos textos que contribuíram anonimamente. 

Ora, pois, pois... vocês não sabem? Textos têm DNA, ou, pelo menos, impressão digital.

🤔

Aí, você deve estar pensando:

Então a AI também tem impressão digital? 

Eu te diria que tem, sim, DNA. Diria ainda que, se hoje um texto de AI pode parecer cheio de impressões digitais, daqui a pouco (ou já agora) pode não ter mais.   

Eu te falo isso pelo seguinte: o sistema está sempre se aperfeiçoando, seja com os profissionais que o mantêm, seja pelo seu “aprendizado” automático com o uso das pessoas. Diria ainda mais: com o uso de AI, não é só a “máquina” que aprende. As pessoas também aprendem. 

Eis aí o segredo, a dialética.

😡

Calma aí. Falo de uma velha lei da mudança. 

E antes que alguém reclame, eu não estou fazendo propaganda comunista, ok? É só dialética mesmo.

Voltemos ao assunto.

Ando lendo e ouvindo por aí uma teoria curiosa: a frequência do travessão denunciaria o uso de AI. 

Ai!!! Será mesmo? 

Ou será que, para manter ocultos revisores contratados (ou os colaboradores amigos) resolveram incriminar o travessão. 

Coitadinho.

Na verdade, os travessões apenas revelam a presença do aposto. Sim, com eles vem junto um aposto — e pode apostar. 

Você não se lembra mais dele? É aquele trecho que traz alguma explicação. 

Por acompanhar estudantes, muitas vezes sem ser devidamente identificado, o aposto comumente chega escoltado por vírgulas, correndo o risco de deixar o parágrafo imenso. E entre tantas vírgulas o leitor pode se perder. Outros escritores tendem a envolver apostos com parênteses. Há, ainda, quem prefira trazê-los após dois pontos.

E o que a AI fez? 

Deu palco e luz para o aposto, libertando os travessões. 

Aposto devidamente apresentado — e liberado o travessão —, praticantes da escrita passaram a usá-lo em seus textos, textinhos e textões... 

E agora? 

Seria o travessão o dedo-duro, o talarica da escrita acadêmica ou será que, para manterem privilégios  e oculto o sujeito revisor, estão criando por aí um outro bode expiatório?


Luzia Magalhães Cardoso