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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Ocupação: dona de casa

 

Ensaio de interpretação social

Luzia Magalhães Cardoso
Rio de Janeiro, 18 jun. 2026


            Segundo dados atualizados do IBGE, 49,1% das mulheres são responsáveis pelos domicílios onde residem. Comparados aos dados de 2010, os resultados indicam um aumento de mais de 38% no número de mulheres chefes de família. Concomitantemente, a pesquisa revela queda do número de mulheres que se apresentam como esposas ou companheiras.
        O cruzamento desses dados sugere o crescimento do número de mulheres que assumem sozinhas a responsabilidade pela manutenção de suas famílias (IBGE, 2022a; Siqueira; Britto, 2024).
  Os resultados preliminares do tema "Trabalho e Rendimento" do Censo Demográfico 2022 (IBGE, 2025) mostram que o trabalho doméstico remunerado (como empregadas, diaristas e faxineiras) e diversas atividades do setor de serviços (como limpeza e conservação, atendimento ao cliente, comércio, alimentação e hospedagem, cuidados e embelezamento), sobretudo os de baixos salários, concentram expressiva participação feminina, principalmente entre mulheres negras.
Segundo o Censo 2022 (IBGE, 2025), a renda familiar per capita por domicílio foi de R$1.638,00. Naquele ano, o salário mínimo nacional era de R$1.212,00. Quando consultados os dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher - RASEAM (Brasil, 2026), 57,4% das chamadas “mães solos”, cuja maioria é de mulheres negras (pardas e pretas), tinham rendimento per capita de até meio salário mínimo
A renda familiar per capita média das famílias brasileiras divulgada revela que importante parcela vive com renda bem baixa. A situação fica ainda mais preocupante quando se trata de famílias monoparentais femininas, conforme as informações do RASEAM (Brasil, 2026).
      Ao relacionarmos os dados apresentados pelo IBGE (2022a; 2025), com os da RASEAM (Brasil, 2026), com atenção à proporção de famílias chefiadas por mulheres com renda de até um salário mínimo, observa-se uma maior exposição à situação de vulnerabilidade, especialmente entre mulheres negras (pretas e pardas).

Essa configuração socioeconômica sugere restrições importantes, não apenas no acesso, mas também na permanência segura em moradias adequadas situadas em territórios dotados de infraestrutura urbana consolidada.

Nesse contexto, a busca por moradias nas periferias pode ser compreendida como uma estratégia historicamente adotada por famílias de baixa renda para viabilizar o acesso à moradia e garantir a sobrevivência familiar. 

        Embora os dados apresentados não permitam estabelecer relações causais diretas entre chefia familiar feminina, raça, renda, trabalho e moradia própria, eles indicam a existência de limitações objetivas para a garantia da segurança habitacional, principalmente, quando analisada a realidade das famílias monoparentais femininas negras.

Ainda segundo o Censo de 2022 (IBGE, 2022b; Bello, 2025), no tocante à realidade das mulheres, além da baixa renda, elas correspondiam a 61,96% da população com deficiência no país, predominando aquelas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto. Entre as mulheres sem deficiência, 30% compartilham dessa mesma condição educacional.

      Em relação aos domicílios monoparentais, em 86,47% deles, são as mulheres que concentram simultaneamente a responsabilidade pela obtenção da renda e pela manutenção cotidiana da vida doméstica (IBGE, 2022b), de forma que o trabalho remunerado soma-se necessariamente às tarefas de cuidado e administração do lar, produzindo jornadas extensas e, consequentemente, reduzindo o tempo disponível para descanso, lazer e autocuidado. 

            A leitura desses estudos estatísticos a partir da Teoria da Reprodução Social e da teoria marxista possibilita desvendar as múltiplas camadas existentes nessa realidade. 

  A literatura feminista de base marxista, aqui representada por Leopoldina Fortunati e Tithi Bhattacharya, vem demonstrando que a reprodução cotidiana da força de trabalho depende de um conjunto de atividades realizadas dentro dos lares, sobretudo por mulheres.

        Não só a gestação e a criação dos filhos, mas também o conjunto das tarefas domésticas cotidianas é indispensável para que trabalhadores e trabalhadoras tenham condições de retornar a seus empregos diariamente: roupas limpas para vestir, alimentação, repouso, ambiente mantido.

       Fortunati (2026) e Bhattacharya (2023), entre outras, denominam esse conjunto de atividades de trabalho reprodutivo, justamente por compreenderem que ele participa da reprodução cotidiana da força de trabalho e da própria sociedade, sendo condição necessária para a sua continuidade histórica. 

        As autoras não compreendem o trabalho reprodutivo como trabalho improdutivo, visto que além do fato de dele resultar diretamente uma mercadoria fundamental à produção capitalista - a força de trabalho -, ele também participa, ainda que de forma indireta, das condições sociais necessárias a essa mesma produção capitalista. 

Segundo as autoras, a força de trabalho humana é trocada no mercado de trabalho por salários, sendo, portanto, também mercadoria.

     Significa, assim, que o trabalho doméstico se insere no processo de reprodução da força de trabalho, tanto quando as mulheres (ou pessoas com útero) gestam, parem, amamentam e criam seus filhos, potenciais futuros trabalhadores, quanto quando garantem as condições diárias para o trabalho daqueles que já estão no mercado de trabalho.

        Para as referidas autoras, as atividades de manutenção e administração do lar e de cuidados com os membros da família constituem um trabalho indispensável à economia capitalista.

        Não somente porque tais atividades são imprescindíveis para a existência de novas gerações de trabalhadores, mas também porque garantem, cotidianamente, as condições necessárias para que trabalhadores e trabalhadoras se apresentem em condições para a realização de seu trabalho remunerado. 

        Significa que o trabalho doméstico, quando concebido como trabalho reprodutivo, é elemento indissociável do processo capitalista de reprodução social.

        Essa perspectiva de análise dialoga com as reflexões de Cláudia Mazzei Nogueira (2004) e Ricardo Antunes (2015) acerca da crescente feminização e precarização do trabalho contemporâneo.

        Nogueira (2004) e Antunes (2015) apontam a tendência do mercado de absorver o trabalho feminino, concentrando as mulheres em ocupações marcadas por baixos salários, informalidade, trabalho intermitente, elevada rotatividade e proteção social frágil ou inexistente, o que denota a precarização e vulnerabilização desse trabalho, sobretudo nos setores que mais absorvem esse grupo de trabalhadoras (setor de serviços, trabalho doméstico e de cuidados em famílias). 

        Tal processo evidencia a articulação entre desigualdades de classe e divisão sexual e racial do trabalho, produzindo formas específicas e intensas de exploração da força de trabalho feminina.

Os dados anteriormente apresentados indicam que parcela significativa dessas mulheres enfrenta limitações econômicas que dificultam o acesso à aquisição de moradia formalmente regularizada. 

        Embora o Censo 2022 tenha investigado o número de famílias que informaram residir em casa própria, os resultados encontrados não identificam quem, entre os familiares residentes no imóvel, é seu proprietário. Também não informa quantas mulheres brasileiras são proprietárias dos imóveis onde residem.

        O aumento do número de mulheres responsáveis pelos domicílios e a predominância de renda de até um salário mínimo constituem um fenômeno articulado à divisão social, sexual e racial do trabalho, bem como à precarização das ocupações femininas e à dupla jornada, com a transferência crescente das responsabilidades de reprodução social para as famílias, particularmente, para as mulheres negras.

        Essas mulheres, além de responderem pela reprodução cotidiana de suas próprias famílias, realizam também o trabalho doméstico e de cuidados necessário à reprodução da vida nas famílias que as contratam. 

        Os dados divulgados no Censo 2022 (IBGE, 2022a e b; 2025) e na RASEAM (BRASIL, 2026), articulados às análises de Fortunati (2026), Bhattacharya (2023), Nogueira (2004) e Antunes (2015) também evidenciam os limites analíticos das categorias “dona de casa” e “do lar” para a classificação do trabalho doméstico, uma vez que ambas contribuem para sua invisibilização. 

        Se o trabalho doméstico e de cuidados constitui trabalho socialmente necessário à reprodução da força de trabalho e da própria sociedade, torna-se relevante observar como ele é registrado e classificado nos estudos estatísticos, nos formulários administrativos e, também, no senso comum. 

        As categorias analíticas utilizadas no meio acadêmico-científico não são neutras. Elas influenciam a forma como o mundo é percebido socialmente e como as diferentes expressões desse mundo são reconhecidas economicamente e incorporadas às análises sobre ocupação, renda e desigualdade.

        Nesse sentido, a classificação de quem realiza o trabalho doméstico como “dona de casa” ou “do lar” também influencia a forma como esse trabalho é percebido e valorizado socialmente.

        A análise dessa nomenclatura torna-se ainda mais relevante quando confrontada com as condições materiais de vida das mulheres às quais ela costuma ser aplicada. São essas mulheres trabalhadoras que, quando não exercem atividade remunerada formal e são solicitadas a informar sua ocupação, tendem a ser classificadas como “dona de casa” ou “do lar”.

      As duas expressões se tornam problemáticas porque transformam o trabalho em identidade doméstica.

          A palavra "dona"  e a expressão “do lar” carregam uma ambiguidade: a primeira pode sugerir uma condição de propriedade, mesmo que frequentemente inexistente, enquanto a segunda desloca a identidade da mulher do trabalho que realiza para o espaço doméstico, vinculando-a a ele.

        Diferentemente de outras categorias ocupacionais que identificam o indivíduo a partir da atividade que realiza, com centralidade no trabalho, as expressões utilizadas para identificar a pessoa que realiza o trabalho reprodutivo em seu próprio espaço doméstico tendem a defini-la a partir do espaço historicamente a ela determinado na divisão sexual do trabalho: a casa, o lar.

        O trabalho, enquanto esforço físico, mental e emocional dispensado na realização das tarefas domésticas e de cuidados cotidianas, é invisibilizado e também naturalizado, concebido como inerente ao gênero feminino, produzindo uma identidade fundada na associação da mulher ao espaço privado e à família, negando o próprio trabalho, que é percebido como atributo feminino e por meio do qual as mulheres demonstram zelo e afeto pelos familiares. 

        Mais do que indicar propriedade e pertencimento, tais expressões contribuem para desumanizar a mulher e negar a sua condição de trabalhadora.

        O que as mulheres fazem deixa de ser reconhecido como trabalho e passa a ser percebido como atributo feminino: “capricho”, "coisa” de mulher, de esposa, de mãe. Essas expressões reforçam a percepção de que o trabalho doméstico é uma condição feminina supostamente natural, apagando, assim, a sua função econômica na sociedade. 

        Nesse sentido, se a expressão "dona de casa" sugere uma propriedade frequentemente inexistente e "do lar" reduz a mulher a um elemento do espaço doméstico, talvez expressões como "administradora do lar" ou "gestora do lar" possam ser mais adequadas por destacarem o conjunto de atividades necessárias à manutenção cotidiana da vida. 

           Ainda assim, nenhuma dessas categorias parece capaz de expressar plenamente a complexidade econômica, social e política do trabalho doméstico e de cuidados realizados cotidianamente por milhões de mulheres. 


Referências

ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 16ª ed. São Paulo: Cortez, 2015.

BELLO, Luiz. Censo 2022: Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência. Agência IBGE Notícias, 25 mai. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43463-censo-2022-brasil-tem-14-4-milhoes-de-pessoas-com-deficiencia Acesso em: 10 jun. 2026. 

BHATTACHARYA, Titti (Org.). Teoria da reprodução social: remapear a classe, recentralizar a opressão. São Paulo: Elefante, 2023.

BRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório anual socioeconômico da mulher: RASEAM. Ano 9. Brasília: Ministério das Mulheres, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes/raseam-2026-relatorio-anual-socioeconomico-da-mulher.pdf/@@display-file/file Acesso em: 12 jun. 2026. 

FORTUNATI, Leopoldina. O Arcano da reprodução: donas de casa, prostitutas, operários e capital. Tradução de Rita Mattos Coitinho. 1ª edição. São Paulo: Boitempo, 2026.

IBGE. Censo demográfico. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 2022a. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/?localidade=BR Acesso em: 11 de junho de 2026.

IBGE. Indicadores. Panorama do Censo 2022: Mulheres. Rio de Janeiro: Fundação IBGE, 2022b. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/indicadores.html?localidade=BR&tema=16 Acesso em: 12 jun. 2026.

IBGE. Censo 2022 - Trabalho e rendimentos: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102211.pdf Acesso em: 12 jun. 2026.

NOGUEIRA, Cláudia Mazzei. A feminização no mundo do trabalho.: entre a emancipação e a precarização. Campinas, SP: Autores Associados, 2004.

SIQUEIRA, Breno; BRITTO, Vinícius. Censo 2022: Em 12 anos, proporção de mulheres responsáveis por domicílios avança e se equipara à de homens. Agência IBGE Notícias, 25 out. 2024. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41663-censo-2022-em-12-anos-proporcao-de-mulheres-responsaveis-por-domicilios-avanca-e-se-equipara-a-de-homens Acesso em: 11 de junho de 2026.

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terça-feira, 16 de junho de 2026

Baldeação

 

Inventário urbano




11h45. Estação BRT, Penha 1.


    Na plataforma, muitas pessoas aguardam a abertura das portas do amarelinho - BRT 80 - Estação Gentileza. Ônibus articulado composto de 2 seções unidas por articulações tipo sanfona. No interior de cada composição há um painel de LED, com letras luminosas azuis, que informa a estação e exibe avisos diversos.

    As seções do ônibus têm paredes internas cinza-claro e cinza-chumbo e, em cinza, também os bancos e as alças de pega-mão. Os ferros horizontais e verticais são todos amarelos. 

O condutor, uniformizado, chega, abre as portas e entra.  Os passageiros fazem o mesmo, distribuindo-se nos bancos. Todos sentam.

Em uma das seções, entra um casal e ocupa o primeiro banco à direita, perto da porta próxima à cabine do condutor. Três mulheres entram e se distribuem ao longo do vagão, em lados e bancos aleatórios.

Um aviso sonoro intermitente de bipe e uma voz de mulher anuncia:

“Atenção ao fechamento das portas.”

“Portas fechadas.”

O condutor se apresenta e o BRT inicia a viagem.

O letreiro luminoso informa a próxima parada. Imediatamente, ouve-se um aviso sonoro de bip, seguido da voz:

“Próxima parada, estação Ibiapina. Desembarque pelo lado esquerdo.”

Pessoas entram e pessoas saem. Um senhor senta-se ao lado de uma passageira que já estava no vagão. Puxa assunto:

        - Vou para o Hospital de Bonsucesso.

O aviso sonoro, o painel luminoso e a voz anunciam a próxima parada: Olaria - Cacique de Ramos:

"Atenção ao vão entre o ônibus e a plataforma." 

“Portas abrindo.”

E o senhor diz:

- Vim de Jacarepaguá. Descerei em Olaria e pegarei o 905.

O ônibus para, as portas se abrem e pessoas entram, distribuindo-se na composição. Alguns se sentam nos bancos ainda vazios. Outros, seguem em pé.

Bip intermitente:

“Atenção ao fechamento das portas." 

“Portas fechando.”

A mulher responde ao senhor que tenta conversar:

- Se o BRT vai pela Av. Brasil, deve ter uma estação em Bonsucesso, em frente ao hospital. Certamente, haverá uma passarela.

Ela volta a olhar para o celular enquanto o mesmo senhor se dirige a outros passageiros, que confirmam a informação dada pela mulher sentada ao seu lado.

Ele segue puxando assunto com ela:

- Vou pegar um exame.

Bip intermitente:

“Próxima parada, Cardoso de Morais”.

- Na outra vez, vim de ônibus. Andei muito até chegar ao hospital.

Bip intermitente.

“Próxima parada, Santa Luzia”

Pessoas entram e se distribuem entre as duas seções. Viajam em pé.

Bip intermitente. 

“Próxima parada, Baixa do Sapateiro.

Aquele senhor fala à mulher ao seu lado:

- Então, vou fazer assim, descerei em Bonsucesso. Obrigado.”

Bip sonoro. 

“Próxima parada, estação Hospital de Bonsucesso. Desembarque pelo lado esquerdo.”

Aquele senhor e outras pessoas se dirigem para a porta. Quando a porta abre, saltam da composição. 

Vozes de uma conversa indecifrável. Duas mulheres que entraram, dividem um mesmo banco, ambas seguem de cabeça baixa mexendo em seus celulares.

Não há mais ninguém em pé.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Fiocruz”.

Pessoas entram, pessoas saem, pessoas conversam mas os diálogos são indecifráveis. Em um momento, dá para entender fragmentos de conversas:

- Tem um status que está parecendo o teu.

- Zap... Tá parecendo.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Benfica”.

Poucas pessoas entram e poucas pessoas saem.

“Portas fechando”.

Do lado de fora, a avenida Brasil. 

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Vasco da Gama. Desembarque pelo lado esquerdo”.

Em direção ao Centro, a primeira pista da avenida Brasil, à direita do BRT, tem trânsito lento; na do meio, fluxo livre; nas pistas da esquerda, no sentido contrário, o fluxo segue sem retenções.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação INTO. Desembarque pelo lado esquerdo”.

Muitas pessoas se juntam na porta. A maioria, homens.

“Porta abrindo”

Todos saltam. Algumas entram.

“Porta fechando”.

Bip intermitente.

“Próxima parada, Terminal Gentileza”.

Todos saltam. 


12h:5.


Há escada rolante e escada fixa para o acesso à plataforma elevada que dá acesso à Rodoviária Novo Rio e à estação do VLT.

Do alto, olhando para fora e para cima, lê-se em uma larga coluna:

“Estação Intermodal Gentileza. Prefeitura do Rio de Janeiro”.

Na estação sentido Centro, ouve-se um som metálico: 

“Tlim, tlim, tlim, tlim”.

Chega um bondinho. Para e abre as portas. No letreiro externo, lê-se:

“Santos Dumont”.

Pessoas entram. Em seguida, um casal e três mulheres entram no primeiro vagão. O casal senta junto, as mulheres se distribuem em bancos aleatórios. As portas são fechadas.

Um homem abre a porta e, em seguida, abre uma outra que dá acesso à cabine do condutor. Entra, fecha a porta e anuncia ser ele o operador. 

Vozes ao fundo:

- Mora onde?

Ouve-se um barulho de motor. Vozes:

- Bangu? Mora longe, hein!

Som de calçados arrastando no chão. Um homem de bermuda e camiseta regata de cor preta senta em um banco próximo a uma porta à esquerda, senta-se em um dos bancos que ficam de costas para a cabine.

We are going to Terminal Gentileza".

Anuncia o letreiro luminoso e, também, uma voz de mulher. Dois apitos intermitentes seguidos do tilintar metálico:

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

O bondinho sai. O aviso sonoro informa, em inglês e em português, sobre a composição de uso exclusivo de mulheres:

“Contamos com a colaboração de todos”.

Pessoas entram e pessoas saem em cada uma das paradas. Lá fora, o letreiro na fachada de um prédio informa: 

“JUSTIÇA FEDERAL”.

O aviso sonoro anuncia:

“Próxima parada, estação Equador”.

Som de passos e do tilintar metálico: 

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Estamos indo para a Pereira Reis. Desembarque pelo lado esquerdo”.

“Embarque liberado”.

Ao chegar nessa estação, pessoas saem e outras entram. Entre as que entram, um homem senta no banco que fica de costas para a cabine do condutor.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima parada, Gamboa. Desembarque pelo lado direito”.

No lado de fora, na região portuária, dos antigos armazéns, no lado direito, há um prédio com traços do tempo. Na fachada, vê-se uma sequência de portas altas, azuis, nas quais, embora fechadas, percebe-se que se abrem ao meio.

O bondinho segue e vê-se uma instalação com muros de grade aramada. Sobre ela, ao fundo, uma rocha, um morro e muitas casas na encosta.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Um muro com tijolos de cimento e uma ampla entrada. Sobre o muro, uma faixa azul:

"VILA OLÍMPICA RADIALISTA 'APOLINHO'

WASHINGTON RODRIGUES".

Seguindo viagem, um prédio de tijolos vermelhos aparentes. Ao alto, em letras em alto relevo:

“EFCB”.

Ao lado do prédio, em uma torre branca, lê-se:

“Quem tem fome tem pressa”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

"Próxima estação, Providência".

O bondinho para na estação. Pessoas entram, pessoas saem do vagão. Uma senhora, com faixa marrom nos cabelos, entra e senta ao lado de um homem com uma mochila preta no colo e que já seguia viagem. Ele digita o celular.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Vozes e conversas indecifráveis. De repente, ouve-se: 

- Eu vou descer e a senhora desce.

Mais vozes:

- Não dá para escutar, mas, precisando...

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima estação, Harmonia. Desembarque pelo lado direito”.

O bondinho  para, as portas se abrem e pessoas entram e saem. O aviso sonoro anuncia:

“Gratuidade liberada.”

No lado externo, um prédio se estende de um lado ao outro da rua, paredes em tom claro, com uma passagem em arco que une as duas partes. No arco, há detalhes, como passadiços e gradis em ferro fundido cinza. No centro, em letras em alto relevo, se lê:

“Moinho Fluminense”.

O bondinho passa sob o arco.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Parada dos Navios - Valongo”.

Ouve-se risos e conversas indecifráveis ao fundo.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Outro prédio à direita: 

“Armazém 4”.

No calçadão da região portuária muitas pessoas passam: uma indo para um lado e outras para o outro. O bondinho para na estação Valongo:

“Embarque liberado”.

Pessoas entram, pessoas saem. Um homem uniformizado, com jaqueta amarela e aparelho na mão, checa as passagens dos passageiros. No calçadão, um  grupo de pessoas com crachá anda tomando sorvete. Duas mulheres que caminham em sentido contrário, se veem, sorriem e se abraçam no calçadão.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Parada dos Museus”.

“Seu cartão individual precisa ser liberado ao embarcar”.

Há um prédio alto e largo, à direita, envolvido com rede de segurança. Ao alto, centralizada, uma faixa azul onde se lê:

“O novo Edifício

A Noite vem aí...”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Falas indecifráveis ao fundo. Som de motor, de parada, de portas abrindo e fechando. Pessoas saem e outras entram nos vagões e ocupam os bancos. Pessoas seguem em pé.

O homem uniformizado com uma jaqueta amarela e que checa as passagens se encosta à parede que separa a cabine do condutor da composição dos passageiros.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima parada, Candelária. Desembarque pelo lado direito”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

O bondinho para. Algumas pessoas entram e muitas pessoas saltam.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.


12h20.


Luzia Magalhães Cardoso

Rio de Janeiro, 16 de junho de 2026.