as [dores] crônicas ideológicas, de maria lucia macari, São Paulo, m.inimalismo, 2025
“Quando os dualismos se fundem, a realidade não é mais a mesma.”
(maria lucia macari)
A apresentação do livro de Maria Lucia Macari não se prende a um modelo tradicional, mas a uma proposta híbrida, onde descrição, interpretação e imagem não se sucedem em etapas, mas se entrelaçam como formas simultâneas de aproximação ao texto.
Conheci a autora no Seminário Internacional Democracia em Tempos Extremos, realizado em São Paulo, no período de 25 a 29 de maio deste ano. Um encontro mais que necessário nesses tempos desmedidos em que os próprios regimes de visibilidade do pensamento entram em disputa.
No evento, houve também lançamentos e relançamentos de livros. Foi lá que tive contato com o pensamento de Maria Lucia pela primeira vez. Fiquei particularmente impressionada com sua apresentação. Quando iniciei sua leitura, imediatamente eu me identifiquei com o estilo de sua escrita. Uma escrita que recusa a convenção acadêmica.
Seus estudos de doutorado foram desenvolvidos durante a pandemia de Covid-19. O percurso inclui deslocamentos entre Brasil, Cuba, México e Estados Unidos, com registros de eventos políticos e sociais citados ao longo do texto.
Os resultados estavam ali, em forma de livro, vermelho, insubordinado. A escolha por apresentar o título e o nome da autora em letras minúsculas na capa, a ausência de sumário e a não divisão em capítulos não parece somente uma questão estética, ela tensiona normas acadêmicas e a forma tradicional de se reforçar hierarquias e limites.
A capa traz ainda o desenho de uma mariposa monarca. Solitária e sem um pedaço de uma das asas. Diante daquela imagem da mariposa monarca, lembrei que essas espécies de mariposas voam em revoada durante o dia, não à noite como a maioria das mariposas, e ainda assim precisam de asas íntegras.
Enquanto uma geração vai do Canadá ao México, a outra faz o caminho de volta. Sobrevoam as barreiras construídas para delimitar territórios.
A imagem da mariposa monarca ferida na capa do livro condensa uma poética de deslocamento e permanência. Muitas são as camadas de sentidos já anunciadas nessa capa, e que se desdobram pelas páginas do livro.
O estudo tem como objeto a ideologia. Para compreendê-lo, a autora mobiliza relações entre tempo, história e memória, e espaço, lançando luz sobre os sujeitos que os habitam, desenhando uma espécie de cartografia de suas manifestações no cotidiano e na experiência histórica. Ela organiza sua escrita entre registros conceituais e discursivos, sem estabilizar uma única forma.
Esses elementos gráficos e conceituais parecem indicar uma preocupação com formas de articulação entre dimensões que não se separam rigidamente.
A autora analisa seus achados recorrendo a Lacan, o que aparece como um desdobramento das imagens e estruturas mobilizadas ao longo do livro. Utiliza as imagens da fita de Möbius e do nó borromeano, nas categorias analíticas de real, simbólico e imaginário. Essas categorias são articuladas às noções de continuidade e descontinuidade na leitura dos fatos ocorridos no passado, que continuam a reverberar no presente.
Precisei construí-los como formas materiais para melhor compreender a aplicação dessas estruturas no tema tratado no livro.
Em suas crônicas finais, essa lógica que já se insinuava nas imagens da capa e na organização dos conceitos se explicita: a fita de Möbius sugere continuidade entre dentro e fora, entre realidade e ficção, entre sujeito e discurso. E com o nó borromeano percebemos a ilusão de considerar que as diferentes dimensões da vida social se sustentam independentemente.
Nesses tempos extremos em que vivemos, entendo que o livro de Maria Lucia Macari contribui para a compreensão dessa (i)realidade
luzia magalhães cardoso
Rio de Janeiro, junho de 2026
m.inimalismos — página do livro:
https://www.editoraminimalismos.com/product-page/as-dores-cr%C3%B4nicas-ideol%C3%B3gicas-de-maria-lucia-macari
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