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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cidadãos de bem

 



Cidadãos de bem


Segunda-feira, 5h da manhã. Subo a escada da estação. Mostro a minha carteira de identidade para a caixa e recebo o bilhete gratuito. Desço e me dirijo para a marcação do vagão feminino. Depois de uns 15 minutos, o aviso:

        - O trem chegará na estação em cinco minutos.

O trem pára, abarrotado de gente: homens, mulheres, jovens. Já me sentindo um cartão, deslizo entre os corpos até uma coluna de alumínio. Entre falas e sons, uma conversa prende minha atenção.

Sentadas, lado a lado, duas mulheres, uma com cerca de cinquenta e poucos anos, a outra um pouco mais jovem. Uma usa jeans, camiseta e chinelos de dedos. Os cabelos trançados no estilo nagô. A outra, bermuda bege, blusa de malha floral vinho, tênis, também vinho. Os cabelos presos ao alto, com uma faixa larga. As duas sorriem bastante.

Conversam. Uma conta a sua rotina de Auxiliar de Serviços Gerais em uma empresa de supermercados, a outra fala sobre o seu tempo de trabalho como cozinheira de uma família moradora dos Jardins.

Dizem que farão baldeação para chegarem aos seus locais de trabalho, após descerem na Estação Oscar Freire.

Eu também farei baldeação do trem para o Metrô. 

A que trabalha em casa de família revela que o faz em regime de residência. Fica lá de segunda a segunda, indo para casa quinzenalmente: carteira assinada férias, décimo terceiro, INSS. Na falta da diarista, dá conta de suas tarefas. Também auxilia o trabalho dos faxineiros. Ganha um salário e meio. A outra conta que ganha um salário como Auxiliar de Serviços Gerais. A primeira é cozinheira,  contratada para confeccionar o almoço e o jantar - e também os pratos a serem servidos em recepções e festas, quando fica em atividade até o fim dos eventos. Para isso, ganha mais duzentos reais.

 Seguem a viagem conversando. 

A cozinheira conta que, nos finais de semana, seus patrões saem em família no SUV Range Rover Evoque prata 2026. Ouviu quando disseram que o veículo tem piloto automático, câmera 3D, teto solar, ar condicionado, Wi-fi, Android Auto, entradas USB, sistema de infoentretenimento e diz:

- Todos os chamam pelo sobrenome: a família Greenyellow. 

Sr Green tem um closet com roupas de modelagem: ternos, blazers, camisas sociais, calças diversas, em linho, cashmere, algodão egípcio. Diz que observa que usa cores claras e que os trabalhadores domésticos precisam arrumá-lo diariamente, mantendo a ordem em degradê, sempre bem passadas. 

Falou que o closet da Sra. Yellow tem muitos vestidos, saias, blazers, calças compridas, calçados, caixas de jóias e que nas suítes dos filhos do casal também há closets individuais, arrumados pelas diaristas.

Sabe que Sr Green é empresário, sócio majoritário de um grande banco da capital. Costuma vê-lo sair para o seu trabalho: calça de alfaiataria, camisa social, colete acolchoado tipo puffer, sapatênis - alguns dias, usa os de couro, em outros, os de tecidos tecnológicos.

Vê sempre um vigilante uniformizado se postar à frente da porta da garagem e acompanhar o Sr. Green sair com o seu Suv Prata. No portão do condomínio, da guarita, um outro vigilante, também uniformizado, aciona o comando para abrir a cancela.

Conta que a esposa do Sr. Green tem a franquia de uma joalheria conhecida, localizada na Rua Barão de Paranapiacaba e que, mensalmente, vai lá. Ouviu a patroa dizer que tem uma gerente de confiança, há anos trabalhando para ela. 

A patroa costuma ir à joalheria para ver o balancete e conferir as vendas, o estoque. Quando volta, costuma contar ao marido a revista que faz de seus funcionários: uniformes e apresentação. Todos, alinhados, se postam à sua frente, lado a lado, mãos para trás, cabeça erguida e um cumprimento sutil, que ela retribui com a cabeça.

Ri ao falar que a sra. Yellow conta esses detalhes durante os almoços de família, também nos chás e recepções que promove em sua residência.

Os patrões têm um casal de filhos jovens que frequentaram o colégio tradicional da cidade, falam duas línguas estrangeiras e passam as férias no exterior. 

Baixando o tom da voz, diz que eles têm o hábito de pagar os bens de valor que adquirem com dinheiro em espécie. Não realizam transações bancárias para valores altos. É uma tradição da família. 

Ela soube que à época da compra da mansão em que os Greenyellow moram, eles pagaram em cash. Os patrões falam que o terreno tem mais de mil metros quadrados só de área plana. Falam muito também sobre o acabamento: mármore italiano e pé direito duplo. 

Ela conta sobre sua rotina, atravessando aquelas portas da mansão, altas e enormes. Gosta de se ver nos grandes vidros das janelas. 

Segue a viagem descrevendo a residência onde trabalha: inúmeras suítes, cozinha ampla, área verde privativa, living, piscina aquecida, espaço gourmet, sauna, salão equipado para atividade física. Sabe que aquela casa é toda automatizada, responde ao comando da voz. As paredes claras, mobiliário em sobretom, uma ou outra peça em cores contrastantes, além de várias obras de arte.

Além dela, cuidam da família Greenyellow duas diaristas, uma dupla de trabalhadores de empresa contratada para faxinas quinzenais, seis vigilantes em rodízio, piscineiro, jardineiro, paisagista, trainee, massagista, psicanalistas, yogue, orientador espiritual, médicos holistas, entre outros.

Ouço as minhas duas companheiras de vagão conversarem - entre paradas, solavancos e empurrões das pessoas que precisam saltar do trem.

O sol ainda morno lá fora e eu, espremida naquele vagão, escutando a história da família Greenyellow. 

Puxando um pacote de biscoitos da bolsa, minha colega de viagem revela que seus patrões defendem o armamento do cidadão de bem e que possuem armas em casa - fechadas em caixas com cadeado e guardadas em sala própria. Diz que concorda com eles: é preciso saber se defender, a si mesmo, a família e a propriedade.

Também concorda quando falam sobre o Bolsa Família. Esticando a coluna nas costas do banco, limpa os farelos de biscoitos caídos em sua roupa. Olhando  a colega nos olhos, diz: 

- Nunca precisei do Bolsa Família. Sou forte e posso trabalhar. Minha mãe cuida de meus filhos.

Conta que nasceu onde mora, em Higienópolis, e que sua mãe veio de Pernambuco ainda jovem, quando passou a trabalhar como doméstica, morando no local, também na região dos Jardins. Seu pai era pedreiro e trabalhava em empreitadas.

A filha dos patrões passou para uma universidade pública. Vai cursar medicina. Diz que ela foi muito bem classificada na prova do ENEM; que ouviu dizer que por eles terem um tio tetravô negro, a menina pôde concorrer às vagas de cotas raciais. 

Dobrando a embalagem vazia do biscoito e guardando em sua bolsa, diz que ouviu falar que um dos sobrinhos dos patrões, saindo da balada de madrugada e dirigindo em disparada, atropelou um morador de rua; que tudo foi explicado na delegacia; que ele voltou para casa sem um arranhão. O atropelado foi socorrido e atendido em um hospital público: fraturou o fêmur. Semanas seguintes, ouviu o filho do patrão dizer que viu o homem pelas ruas da cidade. Exclamou:

- Daqui a pouco, é atropelado novamente.

Viu jornalistas rondando a casa. Soube, por seus colegas do condomínio, que eles procuravam por um funcionário público. Ouviu dizer que na instituição onde trabalhava ele não era conhecido. Naquele dia à noite, também escutou seus patrões falarem com o filho, assessor parlamentar, que era preciso se fazer conhecer.

Diz que há um escândalo financeiro envolvendo o patrão - transações internacionais que resvalam no governo local. Um dia desses, disse, viu na tv os advogados dos Greenyellow explicarem que precisavam ler os autos do processo.

Ao ouvir a voz do Centro de Controle Operacional anunciar a estação onde eu terei que descer, empurrando com o meu corpo a barreira de gente entre mim e a porta do trem, ainda consigo ouvir:

- Gosto muito da família Greenyellow. São todos cidadãos de bem. 


Luzia Magalhães Cardoso

Rio de Janeiro, junho, 2026


#Cronicascotidianas




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