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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ainda Sobre os Atalhos no Caminho da Educação



Ando refletindo, há muito tempo, sobre a importância que a sociedade dá aos símbolos e às cerimônias do processo educativo, como aos apetrechos dos rituais de colações de graus, e como essa mesma sociedade acaba desprezando o que, de fato, toda essa simbologia deveria representar: o conhecimento. 
No longo trajeto da Educação, becas e canudos representam a aquisição de mais um pouquinho de conhecimento. Apenas mais um pouquinho, e nada mais. 


Todo ritual de passagem, de um grau para o outro, de um degrau para outro degrau dessa infinita escada do conhecimento, serve não apenas para enaltecer aqueles que se graduam mas, antes de tudo, são rituais que existem para revelar à sociedade o nível de responsabilidade que tais pessoas passam a ter na intervenção da realidade. 
Sim, cada grau grau que adquirimos, na caminhada do conhecimento, informa à sociedade o nível em que estamos nessa escada, na escada do conhecimento. 

Assim, ao concluirmos as nove séries iniciais do processo de Educação, os símbolos informam que adquirimos, apenas, o conhecimento fundamental para a vida. Assim, como informam os símbolos, a nossa responsabilidade, na intervenção e na transformação da sociedade em que vivemos, se dará somente no cumprimento de tarefas que não exigem conhecimento além. 
Quando concluímos o segundo grau comum, ganhamos os símbolos que representam que, agora, além do conhecimento básico (ou fundamental) temos conhecimento de nível médio, ou mediano. Nada além.

Se concluímos um ensino técnico, os símbolos informam que devemos ter mais responsabilidades na sociedade em que vivemos, pois eles representam conhecimentos que contribuem para o manuseio de ferramentas mais complexas, usadas na intervenção da realidade e que deverão ser usadas pra satisfazer as necessidades sociais. Agora, com ensino técnico, nossas responsabilidades são ainda maiores. Significa que nós não nos diplomamos para nós mesmos. Nós nos diplomamos para o trabalho coletivo e cada diploma nos dá novas responsabilidades e informa, aos outros, o quanto podemos e devemos fazer pela sociedade.

Nos níveis acima (superior: bacharelados e licenciaturas), pós-graduação lato senso (especializações) e estricto senso (mestrado, doutorado, PHD) essa responsabilidade dobra, triplica, quadruplica, se eleva ao quadrado e à enésima potência, conforme os graus que colamos no peito, conforme os degraus que subimos nesse caminho que se projeta em escada.

As pessoas de nível médio têm o dever de dominar, demonstrar e saber aplicar os conhecimentos que adquiriu ao concluir os dois níveis do trajeto (fundamental e médio). Tal responsabilidade deverá ser observada tanto na forma de interpretar e intervir na realidade, como na forma de revelá-la aos outros, seja por meio da linguagem falada ou da linguagem escrita. Seguindo este raciocínio, mais se exigirá das pessoas que acessam os degraus mais elevados da escada do conhecimento. Quanto mais alto for o grau de saber de uma pessoa, quanto mais símbolos do conhecimento ostentar em seu peito, maior será a sua responsabilidade no domínio e na utilização do conhecimento geral e do conhecimento específico, pois a sociedade está nas mãos dos técnicos, dos bacharéis, dos licenciados, dos especialistas, dos mestres, dos doutores e dos PHD's.

Agora, como fica a sociedade quando ela valoriza canudos, becas e rituais e estimula o uso de atalhos? Parece que estão inventando o elevador para se chegar mais rápido ao topo do conhecimento. Parece que criaram um topo, e portanto, um final, para o conhecimento que é infinito.

E por se enganarem, vemos pessoas que procuram elevadores... e colam em provas, e plagiam, e compram trabalhos e... e... e... E aí a sociedade se vê na mão de técnicos, graduados, pós-graduados que, se mal dominam o conhecimento exigido nos níveis iniciais da escada do saber, muito menos conseguem sustentar o conhecimento que seus títulos nos dizem que eles têm.

Por isso, fico cá com os meus botões: - Não podemos restringir o conhecimento à aquisição de canudos e ao protagonismo de rituais. Os rituais têm hora para acabar, os canudos as traças vão devorar... E o saber? E o saber?

Mais um momento meu de "fica a dica".

Luzia M. Cardoso 


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sobre os Atalhos no Caminho da Educação






Sobre os Atalhos no Caminho da Educação


Nem tudo que parece fácil é o melhor e não garante o futuro. A beca, o capelo (chapéu de formatura) , a cerimônia, o diploma e os cumprimentos, sem dúvida, são importantes, mas se tornarão ouro de tolo se o estudante não adquirir e se não sustentar o conhecimento. 
O conhecimento exige interesse, determinação, labuta, superação, disponibilidade, curiosidade, pesquisa, disciplina, insistência, desafio... 
Para a aquisição de conhecimento não há tempo pré-estabelecido porque conhecimento não tem fim, é escada infinita e cada pessoa tem o seu próprio tempo para subir cada um de seus degraus. 
Não há vergonha em ficar, em cada degrau, o tempo que se necessita para adquirir o conhecimento que ele contém. Não há vergonha em ter tempo diferente do tempo de outras pessoas, pois o que vale é o saber.
A vergonha existe em não sustentar o conhecimento que supõe a beca sobre os ombros, o capelo no topo da cabeça e a mão que ergue o canudo.
Por isso, o conhecimento requer humildade. A vaidade e a arrogância são sinais de imaturidade, tornando-se entraves à aquisição do conhecimento.

Fica a dica!

Luzia M. Cardoso 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Mistério do Pescado

Por aqui, muita gente diz que as pessoas assistidas pelo Programa Bolsa Família ficam acomodadas com aquele pouquinho e que, para mantê-lo, estão sempre tendo mais filhos. Será?



O Mistério do Pescado



Em roda de conversa com pessoas distintas, algumas bem de vida, outras, tentando agarrá-la à unha, ouvi aquela velha frase acerca do peixe e das lições de pescar. Os primeiros argumentavam que, se o peixe é dado, a pessoa vai para a rede descansar. E, em tom professoral, insistiam: "Tem que ensinar a pescar!" E falavam ser de seu conhecimento que, desde que criaram o Programa de Distribuição dos Peixes, havia pessoas recusando trabalho e aumentando o número de filhos para também aumentarem a quantidade de peixes nas cestas que recebiam por lá. E diziam que, assim, as pessoas passavam a crer no milagre da multiplicação de peixes pela fertilização do ventre.

Ah, mais há muitos mistérios ocultos entre as mãos do pescador e o peixe que vai partilhar com a família à mesa. Não é somente a vontade, a técnica e a labuta de pescar. Há mais mistérios... Há muito mais. Há o mar...  Há o mar... Ahh, o mar! E nos dias atuais, o mar não está para peixes e as ondas vivem a afogar o pescador.

Nessas águas de peixes escassos e ondas altas, crespas, é preciso ir para alto mar... É preciso ter mais do que uma rede remendada e uma jangada para pescar. É preciso muito mais, e mais ainda, em tempos de procelas.

E diante das procelas e do mar revolto, volto ao cesto de peixes para entender. Observo que há cestos com 70 peixes e há outros cestos, menores, com 32 peixes, uns, e 38 peixes, outros. Ao procurar entender como são distribuídos, verifico que os primeiros são destinados às famílias classificadas como sendo extremamente pobres, com renda mensal familiar, por pessoa, inferior ou igual a 70 moedas.

Busco entender como se dá o acesso aos outros dois cestos de peixes (os que têm 32 e os que têm 38). As condições são as seguintes: todas as famílias extremamente pobres têm direito ao cesto de 70 peixes. Aquelas que tiverem entre os seus membros, crianças e adolescentes de até 15 anos de idade, podem solicitar os cesto menores, os de 32 peixes, desde que, comprovem que os filhos frequentam, regularmente, a escola e que estão com a vacina em dia.

Ah, é por isso que dizem que o cesto-peixes leva à acomodação! Há quem acredite que basta ter mais filhos para ir receber mais cestos de 32 peixes. Há quem acredite que as pessoas que estão em situação de pobreza passarão a ter filhos para aumentar o número de peixes à mesa.

Eu conheço bem as colônias de pescadores e quem vive no mar precisa sempre pescar. Então, continuo por aqui com os critérios para o acesso ao tal cesto de 32 peixes.  A regra é a seguinte: cada família poderá receber, apenas, e no máximo, três cestos de 32 peixes, a mais. Nada além!

Para receberem o ouro cesto, aquele com 38 peixes, a família terá que ter filhos adolescentes, entre 16 a 17 anos, frequentando regularmente a escola. No máximo, cada família poderá receber apenas dois destes cestos.

Em síntese, a distribuição dos tais peixes se dá da seguinte forma:

1 - As famílias extremamente pobres com três ou mais filhos de 0 a 15 anos e com mais dois ou mais adolescentes, de 16 a 17 anos, e que cumprirem as condicionalidades exigidas (frequência à escola e comprovação de vacinação) terão direito a receber por mês, no máximo: um cesto de 70 peixes + 3 cestos de 32 peixes (96 peixes) + 2 cestos com 38 peixes (76 peixes) = 242 peixes mensais.

Considerando uma família composta de um adulto e cinco pessoas, entre crianças e adolescentes, de até 17 anos, terão, ao mês, cerca de 40,4 peixes para cada um. Assim, considerando o mês de 30 dias, cada pessoa terá como refeição diária uma pequena porção 1,34 peixes.

2 – Para as famílias extremamente pobres composta de dois adultos, mais de 5 pessoas, com idade entre 0 a 17 anos, a conta será a seguinte: 70 peixes mais 3 vezes 32 peixes, mais 2 vezes 38 peixes, dividido pelo número de pessoas na família. Ou seja, à mesa dessa família, cada pessoa receberá muito menos de um único peixinho diário por dia!!!

3 – Se a família tiver uma gestante, e se comprovar acompanhamento pré-natal, poderá receber mais um cesto com 32 peixes por até nove meses. Após o nascimento do bebê, se comprovar aleitamento materno, poderá recebê-lo por mais 6 meses. Ah, mas vi que, no máximo, cada família considerada extremamente pobre, além da cesta com 70 peixes, somente poderá receber até 5 cestos menores amais. Independentemente do número de crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes. Nada além!

Dentro desses critérios, uma família de 15 pessoas, em situação de extrema pobreza que, em sua composição, tenha 3 mulheres nutrizes ou gestantes, 8 crianças de 0 a 15 anos e 4 adolescentes de 16 a 7 anos, receberá um cesto grande com 70 peixes, mais 3 cestos, com 32 peixes (96 peixes), mais 2 cestos  com 38 peixes (76 peixes) . Nessa conta, terão, por mês, 242 peixes para repartirem com 15 pessoas. Em cada dia do mês, cada pessoa terá ao prato menos de um peixe para alimentação!  Menos de um peixe diário como refeição dá para alimentar?

Ou seja, não adianta aumentar o número de crianças, adolescentes, nutrizes e gestantes. Cada família extremamente pobre (aquela que tem, no máximo, como renda mensal por cabeça, 70 moedas) receberá, no máximo, 242 peixes mensais!!!!´

E ainda há quem acredite que o cesto-peixe leva pessoas à vida mansa, deitadas à rede, na sombra e água fresca! Só se viverem de brisa!

Olhando, de um lado, o mar, o exército de pescadores na lida, de sol a sol e do outro, os guetos e a miséria multiplicados, eu fico a perguntar aos meus botões: Se há mar, se há peixes, se há pescadores e se há pescaria de sol a sol, quem está ficando com o pescado?

Luzia M. Cardoso
RJ, 23 de maio de 2014



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sapos com Bananas

SAPOS COM BANANAS

Luzia M. Cardoso


Em época de expansão da miséria, filantropização dos direitos, banalização da corrupção, criminalização dos movimentos sociais e hiperconcentração das riquezas, nada como reaproveitar cascas e sobras para levar ao prato das camadas populares. E, assim, convidam-nos a saborear cascas de abobrinhas. Incentivando-nos ao consumo de cascas e de sobras, reapresentam-nos o que, até então, era descartado, mostrando-nos como elas são ricas em nutrientes, vitaminas e fibras.

Ah, a fibra...

Não pensem que sou contra reaproveitar alimentos. Eu sou contra o desperdício e defendo a reeducação alimentar, mas não apenas para a maioria. Que assim seja, também e sobretudo, para a minoria rica deste nosso imenso Brasil. Afinal de contas, as polpas estão concentradas!

Por outro lado, na nossa alimentação, nas refeições de todos nós que vivemos da venda de nossa força de trabalho, há excesso de sapos. Há muito temos engolido tal anfíbio, e apenas este anfíbio. Engolimos sapos, não saboreamos rãs. E sapos não são rãs! Não, não são rãs. Rãs são caras, ingrediente de luxo, fortemente protegidas e embaladas a vácuo. Rãs não são para a mesa de qualquer pé-rapado.

Ah, há sapos... E se existem, dizem que temos que engoli-los!!!

Vamos levando a vida à base de sapos: sapo-rush, sapo-salário, sapo-imposto, sapo-discriminação, sapo-inflação, sapo-precária-educação, sapo-privatização-do-SUS, sapos... Sapos... Sapos...Sapos... Sapos... Sapos... 

Mas todo excesso leva à indigestão. Sabem disso quem nos impõe sapos em todas as nossas míseras refeições diárias. Ao risco de sapos retornarem ao cenário, à iminência de náuseas e cólicas intestinais, não é por acaso que, agora, às portas da Copa do Mundo no Brasil, queiram nos fazer engolir cascas de abobrinhas e sapos com bananas!

E passarão, por nossas goelas abaixo, os sapos com bananas?

Ainda acredito na força, no elo e na resistência de nossa fibra! Não somos macacos!

Rio de Janeiro, 30 de abril de 2014

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A DIGNIDADE PRESIDENCIAL




A DIGNIDADE PRESIDENCIAL

Luzia M. Cardoso

“BELO HORIZONTE, MG, 7 de abril (Folhapress) - A presidente Dilma esteve na manhã de hoje no aeroporto de Confins e viu que as obras no local não vão ficar prontas para a Copa do Mundo, segundo a Infraero.
Dilma esteve na cidade para assinar o contrato de concessão de Confins com o grupo CCR, que venceu recentemente o leilão. A presidente não visitou as obras. No aeroporto, passageiros dividem espaço com operários e tapumes cobrindo as reformas realizadas no local.
O governo de Minas não compareceu ao evento da presidente. O novo governador, Alberto Pinto Coelho (PP), não foi e não mandou representante.

Salta aos olhos na reportagem sobre o atraso nas obras do aeroporto de Confins, em Minas Gerais, não apenas a inoperância do governo mineiro, mas, antes de tudo, o seu desrespeito para com a representante máxima do estado Brasileiro: a Presidente da República.
Considerando as informações veiculadas pela reportagem acima, percebe-se que o governador de Minas Gerias, Alberto Pinto Coelho (do Partido Progressista - PP), desrespeitou gravemente a Presidente da República quando não esteve na cerimônia de concessão do aeroporto de Confins, MG, ou seja, no estado que governa, agravando tal desrespeito quando nem mesmo se fez representar.
Independentemente da vinculação partidária e dos percentuais de críticas e concordância à forma de conduzir o governo de qualquer Presidente, a Presidência da República é ocupada por quem representa o Estado e, logo, o povo de seu país. Desrespeitar o Chefe de Estado é também desrespeitar o povo que o mesmo representa.
O Brasil é uma República Federativa e tem como chefe supremo do Poder Executivo o Presidente da República, conforme o artigo 76 da nossa Carta Constitucional. Desta forma, em cada unidade da Federação, serão os respectivos governadores os chefes do Poder Executivo. Porque assim é, há uma hierarquia e um protocolo a serem respeitados nas relações entre Prefeitos, Govenadores e Presidente do País. E, nessa organização, o Presidente da República presidirá a todo o evento a que comparecer, conforme Decreto 70.274\1974, devendo-lhe respeito institucional os governadores dos Estados e os prefeitos das localidades, respeito esse também demonstrado nas honras e no devido acompanhamento onde estiver prevista a presença do presidente do país.
Assim, a impossibilidade de comparecimento do Governador ou do Prefeito em alguma cerimônia que venha a ocorrer em seus respectivos Estados e Municípios, deverá sempre justificar a ausência e determinar a presença de um seu representante, numa demonstração de respeito institucional pelo Chefe do Estado Brasileiro e pelo povo que o mesmo representa.
Em presença de tão insólita situação, que mensagem nos transmitem as linhas e as entrelinhas que registram a ausência do governador de Minas Gerais, Alberto Pinto Coelho (PP), ignorando a visita da Presidente Dilma Rousseff ao aeroporto de Confins?

Referências
Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível emhttp://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

Decreto Nº. Decreto 70.274, de 09 de março de 1974. Normas do cerimonial público e a ordem geral de precedência. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70274.htm

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A Mulher Brasileira: o que revela o Estudo do IPEA


(Foto de grafite de ruas da região metropolitana do RJ)


A Mulher Brasileira: o que revela o Estudo do IPEA[i]

Luzia Magalhães Cardoso
José-Augusto de Carvalho



O estudo divulgado pelo IPEA (2014) sobre a “tolerância social à violência contra as mulheres” tem contribuído muito para o debate acerca do tema e, em especial, sobre a triste e cruel realidade da mulher brasileira que, independentemente do percentual apresentado no estudo[ii], vem sendo responsabilizada pela violência sexual que tenha sofrido ou que possa vir a sofrer.  De certa forma demonizada, e independentemente da idade, eternamente “Eva”, a mulher parece ter o poder hipnótico de despertar no homem instintos os mais selvagens e incontroláveis, e “guiá-lo” ao seu corpo com gestos, comportamentos e roupas “provocativas”, seja no espaço público ou sob o teto de seu lar.

Apesar de os dados apontarem para a não aceitação da violência física, demonstrando que, pela compreensão de 91% dos entrevistados, “homem que bate em mulher deve ir para a cadeia”, a pesquisa, contraditoriamente, revela que na percepção da maioria dos respondentes “roupa suja se lava em casa”.

 Conforme as análises do documento divulgado,

“Há algo aparentemente paradoxal no fato de parte expressiva dos entrevistados tenderem a concordar tanto com essas últimas sentenças quanto com a que preconiza a prisão para o marido violento – que poderia ser vista como a intromissão da colher do Estado na briga do casal, com a inexorável consequência de tornar pública a lavagem da roupa suja.” (IPEA, Op. Cit: p. 3)

Embora a compreensão do que seja “roupa suja” não tenha sido objeto do estudo, na possibilidade de ofensas, isolamentos, gritos, xingamentos, socos e pontapés estarem dentro do mesmo “cesto” e, desta forma, deverem ser tratadas privadamente, como, então, a violência doméstica contra a mulher será coibida?

Na percepção dos respondentes de que “tem mulher para casar e tem mulher para cama” (34,6%), que “toda mulher sonha em se casar” (50,9%) e que “uma mulher só se sente realizada quando tem filhos” (28,6%), a pesquisa também revela a defesa do modelo da família patriarcal nuclear, ou seja, aquela em que o homem é o chefe da família e a mulher aquela que lhe deve obediência e satisfação. A prevalência dessa percepção reforça um modelo feminino a seguir, ou seja, de recato, maternidade e desejo sexual contido.

 “A permanência da família patriarcal como modelo, positivamente valorizado e desejável, expressa-se nos altos níveis de concordância com algumas frases. Quase 64% dos entrevistados e das entrevistadas afirmaram concordar total ou parcialmente com a ideia de que ‘os homens devem ser a cabeça do lar’.” (IPEA, Idem: P. 4)

Com relação a esta pergunta, o IPEA mostra que o percentual de concordância aumentou entre os respondentes de 60 anos, de baixo nível de escolaridade, católicos ou evangélicos, homens e a residência no Sul e Sudeste. Infere-se, portanto, estarmos em uma sociedade em transição, caso seja fato de a geração mais nova tender a questionar e a mudar tal padrão.

Verifica-se, no estudo em questão, que os analistas tendem a considerar como sinônimos “nível de instrução” e “educação”, quando na realidade, o primeiro mede o tempo de frequência em unidade de ensino e o acesso ao conhecimento e, o segundo, a capacidade de um indivíduo entender e seguir os padrões de comportamento e observância dos valores da comunidade onde se insere.

“Três características dos entrevistados determinam variações significativas na tendência a concordar com essa afirmação, a região de residência, a religião, e a educação. Pessoas com escolaridade média ou superior possuem menor chance de concordar do que pessoas menos educadas, e o mesmo vale para quem reside no Sul/Sudeste. Em relação às demais pessoas, católicos têm chance 1,5 vez, e evangélicos 1,8 vez maior de concordar total ou parcialmente com “toda mulher sonha em se casar”. “ (IPEA, Idem: 6)

Embora pareça haver uma tolerância maior à relação homoafetiva, valores morais herdados da sociedade patriarcal, valorizados pelas igrejas católicas e evangélicas, são defendidos quando se considera que a união entre pessoas do mesmo sexo não tem a mesma beleza da união heterossexual, de forma que a exposição pública de afeto entre casais homossexuais causa incômodo, e ainda, que o casamento (provavelmente percebido como sagrado) deva ser proibido.

Contudo, mais do que revelar, as pesquisas devem subsidiar a práxis da sociedade civil no sentido de desconstruir mitos, dissolver preconceitos, apontar novos valores, visando uma sociedade mais justa, democrática e solidária.

Na medida em que as pesquisas ficarem apenas nas estantes das bibliotecas, o perigo se tornará iminente àqueles que se rebelarem contra padrões e formas dominantes, pois o silêncio e a omissão reforçam o assédio e a ameaça, conforme vem ocorrendo com a jornalista que deflagrou a campanha “Ninguém merece ser estuprada”.


 Sobre os autores:

Luzia Magalhães Cardoso – Brasileira, Assistente Social e Professora universitária.
José-Augusto de Carvalho – Poeta português, de Viana do Alentejo.




[i] IPEA. Sistema de Indicadores de Percepção Social: Tolerância Social à Violência contra Mulheres. Brasília: IPEA, 21 de março de 2014. Disponível em http://ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf Acesso em 02\04\2014.

[ii] No dia 04 de abril do corrente, em nota à imprensa, o IPEA retificou o percentual apresentado no referido estudo para duas questões: “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”, 24% discordaram e 42,7,% concordaram (antes haviam divulgado que 58,4% discordavam e 13,2% concordavam com a afirmação); “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, 58,4 discorda, 12,8% concordam parcialmente e 13,2% concordam (antes haviam divulgado que 24% discordavam e que 42,7% concordavam). http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,ipea-corrige-pesquisa-sobre-abuso-contra-mulheres,1149437,0.htm Acesso em 04\04\2014. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Profissão Pedreiro






Profissão Pedreiro





Muitos operários da construção civil aprenderam o ofício com outros operários, seus mestres, na função de aprendizes (ou de serventes, na indústria de construção civil, como são qualificados). E no processo histórico, muitas profissões de nível superior, como o engenheiro e o arquiteto, surgiram da evolução de muitos ofícios do passado, num processo de aperfeiçoamento do trabalho. E não é por acaso que, ainda hoje, muitos pedreiros sejam formados fora das escolas, acompanhando mestres, de forma que o "como fazer" passa de geração a geração.

Embora, há algum tempo, escolas técnicas também venham formando novos profissionais através de cursos profissionalizantes, a exemplo do curso de edificação, a importância social do mestre, lá nos canteiros de obra, para o processo de formação de novos operários é indiscutível.

Contudo, se por um lado as escolas e cursos profissionalizantes não são de tão fácil acesso e tampouco garantam a possibilidade de estágios, propiciando o exercício da prática, por outro lado, nem todos os operários com conhecimento para serem mestres, trabalham com auxiliares, eliminando, assim, os gastos com o pagamento dos mesmos.



Como trabalhador assalariado, um operário da indústria de construção civil, com jornada de 40 horas semanais, recebe na faixa de 1 a 2 salários mínimos e, com frequência, reside distante do local da obra, de forma que o transporte acaba pesando nos seus gastos do dia a dia.



Não só a indústria de construção civil carece desses profissionais, no cotidiano de uma pequena empresa, de comércio, dos condomínios e de unidades residenciais, com frequência, há a demanda por seus serviços. Sempre há a necessidade de pintar ou repintar, trocar piso, corrigir paredes, reformar cômodos, resolver um vazamento etc.



E aí é que o problema, inicialmente restrito às famílias operárias, chega à toda sociedade. A falta de acesso ao ensino profissionalizante, a dificuldade de estágios, levando ao não acesso a profissionais qualificados, as dificuldades de um trabalhador iniciante conseguir entrar no mercado de trabalho, retardando o exercício da prática profissional, os baixos salários de quem está no mercado de trabalho, bem como a falta de instituição séria para ser a referência na indicação de profissionais, faz com que chefes de famílias, sejam eles homens ou mulheres, fiquem expostos aos trabalhos de maus profissionais e correm ainda o risco de se verem diante de falsos operários. O trabalho realizado por falsos ou maus profissionais gerará novos problemas àquele chefe de família que caiu no canto da sereia, pois terá novos gastos e novas dores de cabeça.


E como ter a certeza de escolher o profissional qualificado com preço justo? 

Muitos diriam, "Busque conhecer o trabalho que já realizaram". Quando é possível, sim, é uma forma. Talvez outros sugiram, "Peça referências no sindicato de trabalhadores da construção civil". Quando se consegue falar com o setor responsável pelo "Apoio Social" aos sindicalizados, pode ser uma ideia. Mas quem fiscaliza o trabalho desses operários, quando realizado de forma autônoma? Quem protege o cidadão do trabalho mal feito e negligenciado? Quem arca com os prejuízos do chefe de família e do pequeno comerciante que, por não saber como confirmar a qualificação profissional, contrata um operário não qualificado para resolver um problema e, em troca, ganha muitos outros? 

E os preços que cobram esses mesmos operários quando são chamados para trabalho autônomo? Não há critérios, não há tabela, não há contrato. Assim, para um mesmo serviço de pintura em um cômodo de 3 m², um operário cobra R$ 400,00 e o outro R$ 1.500,00. Se considerarmos que a pintura de um cômodo de 3 m² será feita em 8h de trabalho, um cobra R$ 50,00 por essa hora e o outro, mais de R$ 100,00

E eu fico também a me perguntar: Porque um operário da construção civil se submete aos baixos salários ofertados pelas indústrias e cobram preços injustos e injustificáveis aos chefes de famílias e aos pequenos comerciantes que demandam por seus serviços?

Que critério têm o operário da construção civil em concordar que lhe pague pela hora de trabalho, em troca de sua carteira assinada e de alguns direitos trabalhistas e previdenciários , o valor de menos de R$ 4,00 e cobrar dos chefes de família, trabalhadores como eles, por essa mesma hora de trabalho, o valor de mais de R$ 50,00?

Vemos, assim, que se por um lado os operários ficam nas mãos do patrão quando assalariados, quando não fortalecem o próprio sindicato para defenderem-se, a população, na atual conjuntura do "salve-se quem pude", fica a mercê dos mesmos, quando o contratam como trabalhadores autônomos.

Que sociedade é esta que nós, povo brasileiro, estamos construindo?

O que fazem os sindicatos e os partidos operários? Cadê o trabalho político? Cadê a consciência operária? Cadê a organização desses trabalhadores a fim de coibir a ação de falsos pedreiros e de advertir os maus profissionais, garantindo o respeito e a confiança da população.

Profissões de nível superior e algumas de nível técnico têm Conselhos profissionais que fiscalizam e regulam a atividade profissional, seja ela realizada de forma autônoma ou assalariada. E ofícios como o de pedreiro, não tem forma alguma de regulação? Se não tem, na minha opinião, os sindicatos poderiam fazer esse trabalho e, assim também estariam próximos aos futuros profissionais, tendo a possibilidade de politizar as novas gerações.

Enquanto o Brasil fica nessa situação em que ninguém confia e ninguém, iludem-se os que creem que o país está dividido em classe A, B, C, D, etc. Iludem-se os que acreditam que tais classes se medem por renda per capita e consumo. 

No Brasil, nas sociedades capitalistas, quem não vive da exploração do trabalho, vive da venda de sua força de trabalho. Neste sentido, ou se é patrão (direta ou indiretamente, como aqueles que aplicam em ações) ou se é trabalhador. Ou o trabalhador constrói a sua consciência de classe e, como sujeito coletivo, luta para mudar essa ordem societária, ou se sujeita às consequências dessa sociedade que se desestrutura e se perverte.


Luzia M. Cardoso 

RJ, 13\01\2014