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sábado, 21 de maio de 2011

E a Cidadania Ficou no Papel

"Crônicas do Cotidiano" - Edição 2011
E a Cidadania Ficou no Papel




Alguns programas de televisão costumam apresentar cenas do cotidiano de pessoas que estão alijadas de seus direitos sociais, objetivando levar-nos, passíveis telespectadores, à muita emoção. E assisti, recentemente, a um desses programas, que no dia foi protagonizado por uma família de um bairro popular, da cidade de Cascavel, no Paraná. Durante a exposição da história, pelo apresentador, vários aspectos chamaram a minha atenção, e que gritam pela atenção de nossos governantes. Logo na chamada do programa, mostravam adolescentes abrigados, devido à falta de recursos de seu pai, um ex-trabalhador rural, já idoso, cuja mulher teria abandonado a família antes do processo de abrigamento dos filhos. E a realidade dos adolescentes era exposta em rede nacional, à revelia de seus direitos de ter a situação tratada em sigilo de justiça.
Mais, a justificativa apresentada para perda do poder familiar por parte do pai, e que teria resultado no abrigamento das crianças e adolescentes, foi a falta de estrutura econômica e residencial, ou seja a extrema pobreza da família, apesar de o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 23, determinar que " A falta ou a carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou suspensão do poder familiar".
Nesse momento, uma interrogação insistia em saltar de minha cabeça:
- Se não havia outros motivos que colocassem em risco as crianças e adolescentes envolvidos, o que ocorreu com o direito dos mesmos assegurados pelo artigo 19º, do referido Estatuto, que garante-lhes o direito de serem em criados e educados no seio de sua família?
A fim de garantir os direitos sociais, o Capítulo dos Direitos Sociais e da Ordem Social, de nossa Constituição, aponta como dever do Estado elaborar Serviços e Programas, por meio da Política de Assistência Social, objetivando ofertar os recursos necessários sobrevivência de pessoas em situação de extrema pobreza. Para operacionalizar essas ações, foi promulgada a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), aprovada a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), organizado o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), estabelecendo seguranças, garantidas por meio de programas, ações e benefícios, como os dois que destaco aqui:
1- O Benefício de Prestação Continuada (BPC), que é destinado às pessoas com necessidades especiais e, quando adultos, também considerados incapacitados ao trabalho, e aos idosos. Apesar de em ambos os casos, haver critérios de inserção, sendo um deles a renda per capita familiar inferior a 1/4 do salario mínimo. Contudo, o valor assegurado pelo BPC é de um salário mínimo mensal;
2- O Programa Bolsa Família (PBF), que é direcionado à família com renda per capita de até R$ 70,00, ofertando um valor básico por família, também de R$ 70,00. Além dos valores variáveis que vai de R$ 32,00 até R$ 172,00, conforme os critérios previstos.
No caso da família de que tratou o programa, ela estaria no perfil para receber os dois Benefícios, tanto o BPC, já que pai dos adolescente tinha mais de 60 anos de idade, quanto o PBF, pela situação de extrema pobreza.
E ali, diante da cena, e dos conjunto de leis e Estatutos de Direitos existentes em nosso país, a minha cabeça mais parecia uma cama elástica. Insistiam em salta incontáveis interrogações, acompanhadas pelas exclamações, vermelhas de indignação.
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Como é cruel a realidade de inúmeros cidadãos brasileiros, alijados dos recursos existentes. Deixamos os direitos sociais à sombra, enquanto lágrimas rolam de nossos olhos.

Luzia M. Cardoso

RJ, 21 de maio de 2011

(Texto revisado em 16/06/2011)

sábado, 15 de janeiro de 2011

O ENCONTRO

O ENCONTRO


Luzia M. Cardoso
Rio de Janeiro, Janeiro de 2011



Mal dei-me conta de haver chegado à página final de «O espelho», um conto de Machado de Assis, levantei os olhos e percebi que tudo à minha volta havia mudado. As paredes estavam avermelhadas. Estranhei. Quase em simultâneo, a minha atenção foi alterada por um ruído monótono, insistente e ritmado. Tentei ignorá-lo e compreender o que acontecia. Não só as paredes haviam mudado de cor, tudo estava diferente: o corredor estreitara-se, as portas tinham sumido e todas as entradas arredondaram-se. O local estava vazio. Só o ruído ecoava alto, muito alto. Também o ruído dos meus passos rebatiam nas paredes, retornando como bumerangue aos meus tímpanos. Minha respiração assemelhava-se ao uivo do vento no vácuo entre as montanhas.
Obstinada, mantive-me no objetivo do reconhecimento do local. Via várias peças, algumas esverdeadas, com surtons que lembravam o marrom, contudo, predominavam as nuances do vermelho.

Tudo estava úmido, intenso e na penumbra. Vez por outra, notava certo brilho, como faíscas azuladas. De repente, novo susto: a instalação hidráulica e a elétrica estavam expostas. Seria possível? Precisava de descansar. Tudo era ou me parecia sobrenatural, além de haver coisas que insistiam em grudar em mim, por mais que as expulsasse. Deveria estar alucinando.
Na busca de refúgio, deparei-me com um foco luminoso. Para lá quis ir. Tentei correr, apesar das limitações impostas por um emaranhado de fios grudentos que em mim enrolavam-se. Num esforço sobrehumano, entre idas e vindas, feita io-iô, arrastei-me... Mas o ruído, aquele ruído monótono, insistia:  
“Tum, tum, tum... Tum, tum, tum.. Tum, tum, tum... Tum, tum, tum.. “
Cada vez mais alto...
“TUM, TUM, TUM... TUM, TUM, TUM... TUM, TUM, TUM...”
Cada vez mais forte...
"TUM, TUM, TUM...
TUM, TUM, TUM...
TUM, TUM, TUM...”
 
E cada vez mais próximo...
“TUM, TUM, TUM. . .
TUM, TUM, TUM...”
Desesperei-me e briguei. Arrastei-me... arranhei-me... lambuzei-me ... ignorei-me... Ahhh!
E um “Tum, tum, tum” tomava conta de mim, possuindo-me... e, filtrando-me, incorporava-me e expulsava-me.
Sem sequer entender como, vi-me no meio de uma esfera gelatinosa, um corredor estreito e escuro. Em uma das extremidades havia um feixe de luz, que ora aumentava, ora quase sumia. Continuei arrastando-me, pois precisava encontrar uma saída. Já estava sufocada. 
 
Para minha surpresa, deparei-me com uma parede gelatinosa e transparente. Ali, fiquei, de mãos espalmadas, nariz grudado e olhos esbugalhados.

“Cada criatura humana traz duas almas consigo:
uma que olha de dentro para fora,
outra que olha de fora para entro...”



Fim

Referência Bibliográfica.

ASSIS, Machado. O Espelho. In, Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.
Disponível em

domingo, 2 de janeiro de 2011

Aos Pés do Flamboyant

Aos Pés do Flamboyant



Luzia M. Cardoso

RJ, Janeiro de 2011






O corpo negro da noite espreguiça-se, acordando vagarosamente. Expande-se, permitindo a penetração dos fios prateados da lua que salta sobre ela, rodopiando, bela e cheia. Um cenário perfeito para uma noite de amor.
Último dia de um ano nos últimos suspiros. Estamos na Lapa, centro histórico da Cidade Maravilhosa, com sobrados do Brasil Colônia em péssimas condições, apesar da fachada ser patrimônio histórico nacional. Como pão bolorento, eles estão com o interior úmido, mofado, instalações elétricas sem manutenção, com muitos fios expostos, desencapados...
João caminha pela rua do Riachuelo, em direção aos Arcos da Lapa. Alto, magro, pele casca de kiwi e cabelos sedosos e pretos. Os olhos negros parecem que foram recortados da noite, e o sorriso branco, com dentes perfeitos, tdevem ter sido esculpidos, um a um, em alguma pedra lunar.
Se não estivéssemos no século XXI, imaginaríamos esse homem trajando um terno branco de linho amassado, sapatos bicolores, com chapéu, também branco, tipo Panamá, levemente caído sobre a testa. Mas esse não é o João que entra em 2011.


A rua fica deserta, como sempre acontece ao desabrochar as noites de feriado. O movimento, cavalheiro, aguarda o amadurecimento da dama, enquanto João anda a passos rápidos e gingados. Tem pressa. Dobra à esquerda, depois à direita, e chega à rua Mem de Sá, já suada com a garoa. Pára em frente ao sobrado onde mora. Abre a porta de madeira, pintada de azul anil, que junto com a janela, também de madeira e na mesma cor, adornam a faxada marfim.
A chão da sala de tábua corrida, sem brilho, caduca, ranheta com o peso dos pés de João. As paredes lembram o ápice do outono, quando as folhas desbotadas caem, deixando o tronco despudoradamente nu, aos caprichos do vento. O teto ainda está forrado por lâminas de madeira, pintadas de branco, ao centro, balança um fio solto com uma lâmpada fluorescente pendurada. Determinado, entra na cozinha, velhos azulejos, ainda azuis, assistem João procurar por uma caixa de fósforos e por velas brancas.


- Onde estão? Nunca as encontro quando preciso.
Enfim, apalpando o fogão de duas bocas, à gás de botijão, encontra os fósforos.
- E as velas?
A última das cinco caixas de velas brancas que comprou no último vinte e nove ainda está caixa lacrada, dentro do velho armário também azul, preso no alto da parede da cozinha.
João pega as duas caixas, a de fósforos e a das velas. Caminha em direção ao quarto. Sobe a escada de degraus de madeira, que também gemem à sua passagem. Percorre um corredor sombrio, estreito, e entra no quarto. Móveis de jacarandá, antigos: um armário de duas portas, um espelho de cristal decorado, à frente de uma delas, e uma cama de viúvo, ao fundo.
João abre o armário e retira as peças de suas vestes de noite. Arruma, cuidadosamente, uma a uma sobre a cama. No armário, ao alto, pega uma caixa com sapatos. Depois, puxa a primeira gaveta. Lá estão as meias, e logo, na gaveta seguinte, pega as roupas íntimas.
Sai do quarto, dirige-se ao banheiro. Abre o chuveiro elétrico, inoperante, e rápido, banha-se em ducha fria. Estava cansado, pois trabalhou a noite anterior, de dezenove horas as sete de hoje, emendando com o plantão que seria do colega, a pedido do mesmo, saindo ainda há pouco, as dezenove horas.


- Joguei pedra na cruz.
Reclama e enrola-se em uma toalha branca, nova. Começa a produção: primeiro as peças íntimas, também novas, rendadas; agora a meia de seda transparente; entra no vestido branco, grudado ao corpo, com um insinuante decote nas costas. Calça os sapatos vermelhos, salto quinze.
- Ssssssmac!!!! Belíssima!!!!!!
Um curto circuito, há dois dias, deixou os sobrados do quarteirão sem luz, por isso, João arruma-se à luz de velas. Acende mais duas, para melhor visualização, posicionando-as bem perto do espelho, Como um exímio cirurgião, com gestos precisos e delicados, pinta o rosto. Primeiro a base, retirando as imperfeições e disfarçando os vestígios de barba. Passa ligeiramente o pó, e contorna os olhos com lápis preto. Cola os longos cílios postiços. Nas pálpebras, dois tons de cor...
- Cinza-chumbo e prateado... Que show!!
Passa o blush e o batom...
- Hum, contornarei os lábios com lápis para aumentá-los, ficarão mais atraentes.
Arruma a peruca longa de fios acobreados... Por fim, cola, uma a uma, as unhas longas e pretas.
- Uau, que gata!!!!!!
Pega a bolsa de mão, da cor dos sapatos, e sai linda, sensual, ao som malandro do bairro boêmio, atraindo para si todos os olhares, sendo assediada pelos homens que passam em seus carros...
- Gostosa, quer passar o Réveillon lá em casa?
- Uau, essa é a nora dos sonhos de meu pai!
Sorri, um sorriso maroto, de canto de boca, discreto, próprio à mulher fiel e comprometida. Nesse momento, uma flecha atravessa seu pensamento:
- Que falta de criatividade, essas cantadas são mais velhas que a própria Lapa. 
 
Segue, chega à linha férrea para Santa Teresa. Senta-se, cruza as pernas, delicadamente, ao balanço do bondinho.
- Que noite linda!
Seus olhos perdem-se no mirante iluminado do Rio de Janeiro, enquanto, no céu, abrem-se milhares de olhos do universo.
- Consegui... Bem na hora!
Murmura, achou que não chegaria no horário. Salta do bondinho, aos pés do florido flamboyant. Entra na casa de show... Luz negra, holofotes... Passa, cumprimentando a todos os presentes.
- Vamos, vamos, querida!
Entre beijos, as amigas a aceleram. Sobem a escada lateral do palco. Posicionam-se na ribalta apagada, e João fica de costa para o público, e de frente para os músicos. As cortinas estão cerradas, abrindo-se de repente. As luzes acendem-se, e ela é ovacionada. Tigresa, vira-se, lentamente, para a platéia. Um frisson!
Com os olhos ávidos, percorre cada cadeira, cada mesa, canto a canto do salão, procurando por alguém. Suspira...
- Ahhhh, lá está. Então veio.
Temia que não viesse, pois tiveram uma briga feia ao revelar-lhe ter retornado aos shows. Conheceram-se na universidade, quando cursava medicina e seu grande amor estudava psicologia. Ambos exercem a profissão, trabalhando em hospital público.
No palco, agora estrela, está inacreditavelmente mais radiante, feminina, sua voz é suave e afinadíssima. 
 
Exigente, selecionou o próprio repertório para esse dia especial. Canta Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Vinícius de Morais. Sai da bossa nova, cai no samba de Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.  Volta ao MPB, e interpreta Elis Regina, imita Alcione, Maria Betânia, Adriana Calcanhoto, Ana Carolina e Rosa Passos. 
 
Ahhhh, é o ápice de seu número, canta Stani Amori,  de Laura Pausini, em perfeito italiano, e de olhos fixos nos olhos mel do amor. Pura emoção!
- Bravo!!!! Bravíssimo!!! Bis!!!!!
Grita a platéia enlouquecida. Indiferentes às súplicas, aos aplausos, aos assobios e aos pedidos de bis, as cortinas caem, pesadas, implacáveis.
A estrela desce e no camarim, despe-se e troca de roupa. Caminha em direção à razão de sua vida, que o recebe com duas taças de champanhe.
Ambos no salão, à meia luz, a poucos passos da meia noite, juntos a todos, mas pareciam estar a sós. Olhos nos olhos, taças transbordantes nas mãos, braços entrecruzados, juntos acompanham a contagem regressiva...
- Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... Feliz 2011!!!!
- Feliz Ano Novo!!!


(Trata-se de um conto, nesse sentido, é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade é apenas uma coincidência)


  Publicado pela CBJE, em Grandes Contos de Autores Brasileiros


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Contando em tranças





Contando em Tranças






Luzia M. Cardoso


Um sonho... Um momento... Um tempo... Um tempo que ficou para trás. Hoje, são páginas viradas, amarelas, dobradas, largadas... Não mais as vi, nunca mais as li. Mas se fecho os olhos, busco profundo, bem lá no fundo, logo eu as vejo, e as releio. Linha a linha, revendo, relendo, lembrando de tudo o que tinha. Estão todas lá, naquele lugar, e é só folhear.

Capa brilhante, dançante. Desenhos multicor, radiantes. Meus olhos ávidos seguem loucos para olhar. Penetram em contos, cantos, recantos, tantos encantos. Encanto-me! Com atenção, é plena a identificação, e só há uma razão: é muita emoção.

Caio no lago. No lago da vida. Vida do cisne feioso, perdido, manhoso... Que foi logo adotado, adotado por patos.
- Cisne criado por patos!
Poderiam ser marrecos, naquela lição. Lá, havia uma lição, uma lição de amor, e mostrava a dor, ambos moldados, as vezes soldados no chumbo...
- Ah, o Soldadinho de Chumbo!
Era diferente, moldado sem perna, ficava parado, ali parado, paralisado, e apaixonado.
- Pela bailarina menina.
A bailarina, pequena dançarina, rodopia, roda, roda, gira, gira e roda, mas apenas roda.
- Que sina!
Soldadinho e bailarina, ambos parados, moldados, amarrados nas manhas da solidão, entram em nuvens de paixão.
- Queima coração! Que aflição!
Um coração partido vira coração bandido, coração de chumbo... Coração de vidro, frio, não pulsa.
- Não, não pulsa, não.
Só bate e rebate. Rebate e bate. Bate e rebate. Não sente que sente. Não sente que sente que dói sua dor.
- Não, não dói sua dor.
Sua de dor. Suado na dor.
- Suado, sofrido, sente também a dor.
Não sente que dói, e sua de dor.
Frio, prendeu a poesia, por tantos dias: Na gaiola, o pássaro caçado... Foi parar lá, maltratado; No aquário de águas turvas, esquecido, deixou o peixinho dourado... Também mal cuidado.
- Coitados!
Trancados em paredes cinzas, insalubres...
- Não resistem!
Mas insistem, persistem... Insistem e persistem... Insistem, persistem, ... E desistem...
- Desistem.
O pássaro ferido e o peixinho largado partiram, passaram... Ambos jogados no ralo, na cova rasa do quintal, escombro outonal, que mofa nas sombras escuras da velha casa, agora assombrada.
- Havia uma árvore naquele lugar.
Vejo lá uma árvore. Uma árvore plantada por pequeninas mãos. Germinada nos sonhos e sorrisos tão frescos. Desde então, cresceram juntos, a árvore e o dono das mãos.
- Tornaram-se grandes e fortes...
Veias e sulcos. Pulsos que pulsam, pulsam os pulsos, pulsos, impulsos, pulsam, impulsos, pulsam, pulsam. Sangue e seiva pulsam, formam, dando forma à grossa casca.
- A casca é grossa para as tempestades.
Também para as secas e ventanias...


Até que um dia, sem ter motivos, a mão pegou a serra elétrica para tocar...
- Sem ter motivos, ela foi tocar.
Tocou as cordas do velho tronco, desafinando também as notas.
- Noto, insistente, as notas tortas.
A serra seca, serrando toca, tocando serra. Toca e serra, toca e serra, toca seca. Seca serra, serra, serra, e já há serra naquela terra que tudo encerra.
O sol esquenta fervendo a água, escalda o sangue, derrama a seiva...
- Em ebulição.
A serra segue, serrando o tronco, tocando a corda com seus acordes...
- Estridentes, persistentes...
Persistente, a mão não sente.
- Não, não sente, não.
A mão na serra, serra na mão. Na mão a força, a pulsação. Pulsando manda, manda e desmanda no coração. 
Serra e toca, toca e serra, cordas e tronco, fio a fio, serra e desfia com a própria mão.
- Destronca o tronco...
A serra forte já serra os olhos, e cega o homem com o pó do tronco. Suando,  serra, segura e serra com a serra elétrica. E sua elétrico, quebrando as frágeis cordas com um puxão.
- Partiu o tronco...

Partiu o tronco. Caiu com a copa, quebrando ovos, fazendo inverno em tantos ninhos do jatobá. Copa e tronco, ninhos e ovos, e os galhos secos do jatobá... Todos no chão... Tristes, mortos, todos lá, calados, machucados, caídos no chão. Foi tudo em vão.


- Roda pião, faz calo no pé, pedindo atenção.
E jorra a seiva, orvalha e jorra a seiva rubra. Brilha vermelha, na terra inteira.
- A terra avermelha, molhando o barro.
O barro pulsa, a seiva pulsa, tudo é vermelho, pulsando a dor. E a dor lancinante  expulsa a seiva,  que pulsante brota, expulsando a dor.
- Pulsando expulsa também a dor.
Pulsa e escorre. Pulsa e encolhe. Pulsa e expande. Expande e encolhe. Pulsa e escorre, escorre e expande... Pulsando forma um ribeirão.  Escorre  e expande, pulsando breve, faz-se afluente do velho riacho. 
Molha o sanhaço, pintando a arara, aos reclames do uirapuru, que emocionado, à cabeceira do ribeirão, recolhe, no canto, um canto tão fino, um canto menino, lançado e esquecido nas primeiras primaveras.
E em revoada, a passarada, atordoada, forma uma roda. Voando em roda, gira a roda... Dá meia volta, e volta e meia, a roda gira inteira. Roda a roda.
- A passarada dá muitas voltas...
Dá muitas voltas a passarada, e as nuvens passam em toda a estrada...


- Roda a roda, e a roda gira, segue e gira, mudando tudo, movendo o mundo, e todos giram. Renova o ar.
A noite cai num pranto escuro, ao som da mata, que lamenta quem mata. E a água rola a pedra solta, descendo enrola também as outras. A água rola, descendo as pedras, por entre fendas e grutas escuras.
- É a cachoeira!


E a água segue, rolando, desce, cai em cascata.
- E gira a roda...
A água menina, de saia rodada, espuma a renda, e sobe o toco do velho tronco do jatobá. Estufa o leito, escolhe as notas, entoa o hino, e num solo triste canta o adeus.



Luzia M. Cardoso
Conto, foto e edição
RJ, 28 de dezembro de 2010 


Referência aos contos de Hans Christian Andersen e José Mauro de Vasconcelos, (Coração de Vidro), ambos citados de memória.


Efeito em glitter: http://www.scrapee.net 


  Conto selecionado para publicação pela CBJE, "Contos de Aurtroes Contemporâneos, 2011.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Simpatia no Réveillon

Simpatia no Réveillon

Rosas rubras no ar, amarelo para brilhar, brancas espumas nas ondas do luar. E... um, dois...sete... muitos beijos apaixonados! Feliz 2011!


Luzia M. Cardoso

sábado, 11 de dezembro de 2010