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terça-feira, 16 de junho de 2026

Baldeação

 

Inventário urbano




11h45. Estação BRT, Penha 1.


    Na plataforma, muitas pessoas aguardam a abertura das portas do amarelinho - BRT 80 - Estação Gentileza. Ônibus articulado composto de 2 seções unidas por articulações tipo sanfona. No interior de cada composição há um painel de LED, com letras luminosas azuis, que informa a estação e exibe avisos diversos.

    As seções do ônibus têm paredes internas cinza-claro e cinza-chumbo e, em cinza, também os bancos e as alças de pega-mão. Os ferros horizontais e verticais são todos amarelos. 

O condutor, uniformizado, chega, abre as portas e entra.  Os passageiros fazem o mesmo, distribuindo-se nos bancos. Todos sentam.

Em uma das seções, entra um casal e ocupa o primeiro banco à direita, perto da porta próxima à cabine do condutor. Três mulheres entram e se distribuem ao longo do vagão, em lados e bancos aleatórios.

Um aviso sonoro intermitente de bipe e uma voz de mulher anuncia:

“Atenção ao fechamento das portas.”

“Portas fechadas.”

O condutor se apresenta e o BRT inicia a viagem.

O letreiro luminoso informa a próxima parada. Imediatamente, ouve-se um aviso sonoro de bip, seguido da voz:

“Próxima parada, estação Ibiapina. Desembarque pelo lado esquerdo.”

Pessoas entram e pessoas saem. Um senhor senta-se ao lado de uma passageira que já estava no vagão. Puxa assunto:

        - Vou para o Hospital de Bonsucesso.

O aviso sonoro, o painel luminoso e a voz anunciam a próxima parada: Olaria - Cacique de Ramos:

"Atenção ao vão entre o ônibus e a plataforma." 

“Portas abrindo.”

E o senhor diz:

- Vim de Jacarepaguá. Descerei em Olaria e pegarei o 905.

O ônibus para, as portas se abrem e pessoas entram, distribuindo-se na composição. Alguns se sentam nos bancos ainda vazios. Outros, seguem em pé.

Bip intermitente:

“Atenção ao fechamento das portas." 

“Portas fechando.”

A mulher responde ao senhor que tenta conversar:

- Se o BRT vai pela Av. Brasil, deve ter uma estação em Bonsucesso, em frente ao hospital. Certamente, haverá uma passarela.

Ela volta a olhar para o celular enquanto o mesmo senhor se dirige a outros passageiros, que confirmam a informação dada pela mulher sentada ao seu lado.

Ele segue puxando assunto com ela:

- Vou pegar um exame.

Bip intermitente:

“Próxima parada, Cardoso de Morais”.

- Na outra vez, vim de ônibus. Andei muito até chegar ao hospital.

Bip intermitente.

“Próxima parada, Santa Luzia”

Pessoas entram e se distribuem entre as duas seções. Viajam em pé.

Bip intermitente. 

“Próxima parada, Baixa do Sapateiro.

Aquele senhor fala à mulher ao seu lado:

- Então, vou fazer assim, descerei em Bonsucesso. Obrigado.”

Bip sonoro. 

“Próxima parada, estação Hospital de Bonsucesso. Desembarque pelo lado esquerdo.”

Aquele senhor e outras pessoas se dirigem para a porta. Quando a porta abre, saltam da composição. 

Vozes de uma conversa indecifrável. Duas mulheres que entraram, dividem um mesmo banco, ambas seguem de cabeça baixa mexendo em seus celulares.

Não há mais ninguém em pé.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Fiocruz”.

Pessoas entram, pessoas saem, pessoas conversam mas os diálogos são indecifráveis. Em um momento, dá para entender fragmentos de conversas:

- Tem um status que está parecendo o teu.

- Zap... Tá parecendo.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Benfica”.

Poucas pessoas entram e poucas pessoas saem.

“Portas fechando”.

Do lado de fora, a avenida Brasil. 

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação Vasco da Gama. Desembarque pelo lado esquerdo”.

Em direção ao Centro, a primeira pista da avenida Brasil, à direita do BRT, tem trânsito lento; na do meio, fluxo livre; nas pistas da esquerda, no sentido contrário, o fluxo segue sem retenções.

Bip intermitente.

“Próxima parada, estação INTO. Desembarque pelo lado esquerdo”.

Muitas pessoas se juntam na porta. A maioria, homens.

“Porta abrindo”

Todos saltam. Algumas entram.

“Porta fechando”.

Bip intermitente.

“Próxima parada, Terminal Gentileza”.

Todos saltam. 


12h:5.


Há escada rolante e escada fixa para o acesso à plataforma elevada que dá acesso à Rodoviária Novo Rio e à estação do VLT.

Do alto, olhando para fora e para cima, lê-se em uma larga coluna:

“Estação Intermodal Gentileza. Prefeitura do Rio de Janeiro”.

Na estação sentido Centro, ouve-se um som metálico: 

“Tlim, tlim, tlim, tlim”.

Chega um bondinho. Para e abre as portas. No letreiro externo, lê-se:

“Santos Dumont”.

Pessoas entram. Em seguida, um casal e três mulheres entram no primeiro vagão. O casal senta junto, as mulheres se distribuem em bancos aleatórios. As portas são fechadas.

Um homem abre a porta e, em seguida, abre uma outra que dá acesso à cabine do condutor. Entra, fecha a porta e anuncia ser ele o operador. 

Vozes ao fundo:

- Mora onde?

Ouve-se um barulho de motor. Vozes:

- Bangu? Mora longe, hein!

Som de calçados arrastando no chão. Um homem de bermuda e camiseta regata de cor preta senta em um banco próximo a uma porta à esquerda, senta-se em um dos bancos que ficam de costas para a cabine.

We are going to Terminal Gentileza".

Anuncia o letreiro luminoso e, também, uma voz de mulher. Dois apitos intermitentes seguidos do tilintar metálico:

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

O bondinho sai. O aviso sonoro informa, em inglês e em português, sobre a composição de uso exclusivo de mulheres:

“Contamos com a colaboração de todos”.

Pessoas entram e pessoas saem em cada uma das paradas. Lá fora, o letreiro na fachada de um prédio informa: 

“JUSTIÇA FEDERAL”.

O aviso sonoro anuncia:

“Próxima parada, estação Equador”.

Som de passos e do tilintar metálico: 

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Estamos indo para a Pereira Reis. Desembarque pelo lado esquerdo”.

“Embarque liberado”.

Ao chegar nessa estação, pessoas saem e outras entram. Entre as que entram, um homem senta no banco que fica de costas para a cabine do condutor.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima parada, Gamboa. Desembarque pelo lado direito”.

No lado de fora, na região portuária, dos antigos armazéns, no lado direito, há um prédio com traços do tempo. Na fachada, vê-se uma sequência de portas altas, azuis, nas quais, embora fechadas, percebe-se que se abrem ao meio.

O bondinho segue e vê-se uma instalação com muros de grade aramada. Sobre ela, ao fundo, uma rocha, um morro e muitas casas na encosta.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Um muro com tijolos de cimento e uma ampla entrada. Sobre o muro, uma faixa azul:

"VILA OLÍMPICA RADIALISTA 'APOLINHO'

WASHINGTON RODRIGUES".

Seguindo viagem, um prédio de tijolos vermelhos aparentes. Ao alto, em letras em alto relevo:

“EFCB”.

Ao lado do prédio, em uma torre branca, lê-se:

“Quem tem fome tem pressa”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

"Próxima estação, Providência".

O bondinho para na estação. Pessoas entram, pessoas saem do vagão. Uma senhora, com faixa marrom nos cabelos, entra e senta ao lado de um homem com uma mochila preta no colo e que já seguia viagem. Ele digita o celular.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Vozes e conversas indecifráveis. De repente, ouve-se: 

- Eu vou descer e a senhora desce.

Mais vozes:

- Não dá para escutar, mas, precisando...

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima estação, Harmonia. Desembarque pelo lado direito”.

O bondinho  para, as portas se abrem e pessoas entram e saem. O aviso sonoro anuncia:

“Gratuidade liberada.”

No lado externo, um prédio se estende de um lado ao outro da rua, paredes em tom claro, com uma passagem em arco que une as duas partes. No arco, há detalhes, como passadiços e gradis em ferro fundido cinza. No centro, em letras em alto relevo, se lê:

“Moinho Fluminense”.

O bondinho passa sob o arco.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Parada dos Navios - Valongo”.

Ouve-se risos e conversas indecifráveis ao fundo.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Outro prédio à direita: 

“Armazém 4”.

No calçadão da região portuária muitas pessoas passam: uma indo para um lado e outras para o outro. O bondinho para na estação Valongo:

“Embarque liberado”.

Pessoas entram, pessoas saem. Um homem uniformizado, com jaqueta amarela e aparelho na mão, checa as passagens dos passageiros. No calçadão, um  grupo de pessoas com crachá anda tomando sorvete. Duas mulheres que caminham em sentido contrário, se veem, sorriem e se abraçam no calçadão.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Parada dos Museus”.

“Seu cartão individual precisa ser liberado ao embarcar”.

Há um prédio alto e largo, à direita, envolvido com rede de segurança. Ao alto, centralizada, uma faixa azul onde se lê:

“O novo Edifício

A Noite vem aí...”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

Falas indecifráveis ao fundo. Som de motor, de parada, de portas abrindo e fechando. Pessoas saem e outras entram nos vagões e ocupam os bancos. Pessoas seguem em pé.

O homem uniformizado com uma jaqueta amarela e que checa as passagens se encosta à parede que separa a cabine do condutor da composição dos passageiros.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

“Próxima parada, Candelária. Desembarque pelo lado direito”.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.

O bondinho para. Algumas pessoas entram e muitas pessoas saltam.

“Tlen tlem, tlem, tlen”.


12h20.


Luzia Magalhães Cardoso

Rio de Janeiro, 16 de junho de 2026.

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