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segunda-feira, 15 de junho de 2026

O homem das duas sacolas

 

O homem das duas sacolas


O Sr. Clementino volta da feira. Caminha carregando as compras: duas peças de robalo, 2,5 kg de camarão dos graúdos. Costuma dizer que quem compra camarão pequeno acaba bebendo caldo de cascas. Na outra, verduras e legumes diversos. As alças das duas sacolas afundam em seus dedos arroxeados. Dá uma sentadinha no banco da praça, retira de seu bolso um pequeno caderno e lê, atento, a receita que planejou para esse domingo:

- Acho que não esqueci de nada, não.

Levanta-se e segue. Uma das sacolas começa a pingar água. De repente, bate na cabeça e, olha em volta, buscando alguma coisa na praça. Corre até uma barraquinha com panos de prato e outras peças, também de pano, expostas na banca. Olha para a vendedora:

- Bom dia, dona Clô! Cadê aquele avental preto que vi semana passada?

Dona Clô abaixa e abre uma bolsa que está debaixo da banca:

        - Tá aqui, seu Clementino. Guardei para ti.

Clementino agradece e paga. Retorna ao seu caminho, atravessando a praça do Meio e deixando rastros no chão. 

        - Preciso correr, antes que o pessoal chegue.

Assim que o trânsito suaviza, atravessa a rua e entra imediatamente à esquerda, na Rua do Lado. Caminha três quarteirões e para no número 150: Condomínio Hortência. 

Abre o portão e busca com os olhos nervosos o porteiro, Sr. Santos. Para em frente ao balcão da recepção:

- Já tá dormindo, seu Santos?

Santos se ajeita na cadeira e olha para Clementino. Com um sorriso maroto, diz:

      - Han?! Que isso, seu Clementino? Tô atento e forte, como é preciso!

Clementino pergunta:

- O pessoal chegou, seu Santos?

Com a voz rouca e arrastada, o Sr. Santos responde:

       - Não reparei, não, seu Clementino.

Clementino vai para o hall do elevador, no visor luminoso que indica os andares, lê: “7”. Ansioso, não espera. Corre para a escada. Mora no 602.

Arf, arf, arf, arf, arf, arf...

Chega completamente sem fôlego... e com os joelhos reclamando.

        - Já não tenho mais 20 anos.

Coloca a chave na porta e se inquieta com a quantidade de voltas daquela fechadura Papaiz.

Desiste da porta social e entra pela porta de serviços. Parado, faz uma vistoria no ambiente com o olhar. Estranha a cozinha ainda arrumada, sem cheiro de tempero fritando na panela, sem a mulher descascando legumes.

Joga as sacolas sobre a mesa. O cachorro pula em sua perna balançando o rabinho. Clementino pega o cachorro no colo e caminha em direção a sala com passos pesados, batendo os pés. Resmunga:

- O mundo virou de cabeça pra baixo, mesmo. Cadê Catarina? Cadê essa mulher?

Segue pelo corredor e para. Abre e fecha os olhos algumas vezes para ter certeza do que vê. A sala está cheia, com gente por todos os lados: gente sentada no sofá vermelho, nas cadeiras, na varanda, em pé, encostadas à parede e, até mesmo, no chão. Todo mundo estava lá.

Nesse momento, a campainha toca! O primo Oswaldo, perto da porta atende. É seu Santos que, sorrindo, diz:

- Vim rapidinho, seu Clementino! 

Nisso, um "fssss", "fuuuu", "fsssshh"  chama sua atenção e ele olha para o lado. Subitamente,

"Pop!", "Plop!" e "Bum!" 

Clementino esbraveja:

- Querem me matar de susto, seus malucos?

Alguém joga nele uma bexiga colorida. Dona Catarina, sua esposa, corre ao seu encontro de braços abertos. Em uníssono, esposa, filhos, amigos, irmãos e a parentada gritam:

- Feliz aniversário, Clementino! 

Sem perder tempo, Catarina segura a mão de Clementino, olha para a irmã, D. Jussara, e pergunta:

- Cadê aquela pimenta de cheiro e o azeite de dendê que tu disseste que traria?

D. Jussara revira a bolsa, pega um embrulho luminoso e diz:

- Trouxe de presente pra você, Clementino!

Ele pega o presente, recebendo um abraço afetuoso. Logo, a parentada também lhe entrega seus presentes seguido de um abraço: Caninha da Roça embrulhada com folha de bananeira, rapadura da Serra, panela de barro pintada de preto, agogô.

Clementino abre todos, apoiando-os sobre a mesa, entre emoção e agradecimentos. 

O primo João dá-lhe um abraço muito apertado, mas tão apertado que Clementino chega a tossir. Entusiasmado, João levanta Clementino do chão e diz:

- Vê se me vence hoje!

Solta uma gargalhada e entregar-lhe um jogo de damas de madeira.

Clementino sorri, já com os olhos marejados. Nisso, Catarina pega sua mão, dá uma piscadela, olha para todos na sala e convoca:

        - Bora pra cozinha preparar a moqueca, minha gente?

Clementino larga a mão de Catarina, vai correndo à cozinha e volta com ar de moleque. Na sala, ergue e balança o camarão graúdo. Olhando para todos, afirma:

        - Esst é dos grandes, minha gente!

A prima Marilene logo se apresenta:

- As cascas darão um bom pirão, hein! Deixa que eu faço!

A sala explode em risada.

Clementino repara que algumas pesoas começarem a puxar os instrumentos que trouxeram: pandeiro, cavaquinho, ukulele. Ao ver o filho afinar o violão, grita:

- Toca Raul!!!


Luzia Magalhães Cardoso

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2026


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