O homem das duas sacolas
Sr. Clementino volta da feira. Caminha carregando as compras: duas peças de robalo, 2,5 kg de camarão - dos graúdos. Ele costuma dizer que quem compra camarão pequeno acaba bebendo caldo de cascas. Na outra sacola, verduras e legumes diversos.
As alças das duas sacolas afundam em seus dedos arroxeados. Dá uma sentadinha no banco da praça, retira de seu bolso um pequeno caderno e lê, atento, a receita que planejou para esse domingo:
- Acho que não esqueci de nada, não.
Levanta-se e segue. Uma das sacolas começa a pingar água. De repente, bate na cabeça e olha em volta, buscando alguma coisa na praça. Corre até uma barraquinha com panos de prato e outras peças, também de pano, expostas na banca:
- Bom dia, dona Clô! Cadê aquele avental preto que vi semana passada?
Dona Clô abaixa, abrindo uma bolsa que está debaixo da banca:
- Tá aqui, seu Clementino. Guardei para ti.
Clementino agradece e paga. Retorna ao seu caminho, atravessando a praça do Meio e deixando rastros no chão.
- Preciso correr, antes que o pessoal chegue.
Assim que o trânsito suaviza, olha atento para um lado e paa o outro e atravessa a rua. Entra imediatamente à esquerda, Rua do Lado. Caminha três quarteirões e para no número 150: Condomínio Hortênsia.
Abre o portão e, com os olhos nervosos, procura o porteiro, Sr. Santos. Para em frente ao balcão da recepção:
- Já tá dormindo, seu Santos?
Santos se ajeita na cadeira e olha para Clementino. Com um sorriso maroto, diz:
- Han?! Que isso, seu Clementino? Tô atento e forte, como é preciso!
Clementino pergunta:
- O pessoal chegou, seu Santos?
Com a voz rouca e arrastada, responde:
- Não reparei, não, seu Clementino.
Clementino vai para o hall do elevador. No visor luminoso que indica os andares, lê: “7”. Ansioso, não espera. Corre para a escada. Mora no 602.
Arf, arf, arf, arf, arf, arf...
Completamente sem fôlego... e com os joelhos reclamando:
- Já não tenho mais 20 anos.
Coloca a chave na porta e se inquieta com a quantidade de voltas daquela fechadura Papaiz. Desiste da porta social e entra pela porta de serviços.
Parado, coça a cabeça, meio que vistoriando o ambiente com o olhar. Estranha a cozinha ainda arrumada, sem cheiro de tempero fritando na panela, sem a mulher descascando legumes.
Joga as sacolas sobre a mesa. O cachorro pula em sua perna, balançando o rabinho. Clementino pega o cachorro no colo e caminha em direção à sala, com passos pesados e batendo os pés. Resmunga:
- O mundo virou de cabeça pra baixo, mesmo. Cadê Catarina? Cadê essa mulher?
Segue pelo corredor e para. Abre e fecha os olhos algumas vezes.
A sala está cheia, com gente por todos os lados: gente sentada no sofá vermelho, nas poltronas, nas cadeiras, na varanda, em pé espalhadas, encostadas à parede e, até mesmo sentadas no chão. Todo mundo já estava lá.
Nesse momento, a campainha toca! O primo Oswaldo, em pé perto da porta, atende. É seu Santos que, sorrindo, diz:
- Vim rapidinho, seu Clementino!
Nisso, um "fssss", "fuuuu", "fsssshh" chama sua atenção e ele olha para o lado. Subitamente,
"Pop!", "Plop!" e "Bum!"
Clementino esbraveja:
- Querem me matar de susto, seus malucos?
Alguém joga nele uma bexiga colorida. Muita risada.
Dona Catarina, sua esposa, corre ao seu encontro de braços abertos. Em uníssono, esposa, filhos, amigos, irmãos e a parentada gritam:
- Feliz aniversário, Clementino!
Sem perder tempo, Catarina segura a mão de Clementino, olha para a irmã, D. Jussara, e pergunta:
- Cadê aquela pimenta de cheiro e o azeite de dendê que tu disseste que traria?
D. Jussara revira a bolsa, pega um embrulho luminoso e diz:
- Trouxe de presente pra você, Clementino!
Ele pega o presente e recebe um abraço apertado, repleto de afeto. Logo, a parentada também lhe entrega presentes, sempre seguidos de abraço, afagos e beijos carinhosos: Caninha da Roça embrulhada com folha de bananeira, rapadura da Serra, panela de barro pintada de preto, agogô.
Clementino abre todos os embrulhos, mostrando-os a todos, apoiando-os sobre a mesa, entre emoção e agradecimentos.
O primo João dá-lhe um abraço que, de tão apertado, Clementino chega a tossir. Entusiasmado, João levanta Clementino do chão e diz:
- Vê se me vence hoje!
Solta uma gargalhada e entrega-lhe um jogo de damas de madeira.
Clementino sorri, já com os olhos marejados. Nisso, Catarina pega sua mão, olhando-o, dá uma piscadela, volta-se para todos e convoca:
- Bora pra cozinha preparar a moqueca, minha gente?
Clementino larga a mão de Catarina, vai correndo à cozinha e volta com ar de moleque. Na sala, ergue e balança o camarão graúdo. Olhando para todos, afirma:
- Este é dos grandes, minha gente!
A prima Marilene logo se apresenta:
- As cascas darão um bom pirão, hein! Deixa que eu faço!
A sala explode em risada.
Clementino repara que algumas pessoas começam a puxar os instrumentos que trouxeram: pandeiro, cavaquinho, ukulele. Ao ver o filho afinar o violão, grita:
- Toca Raul!!!
Luzia Magalhães Cardoso
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2026
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