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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Visita ao Santuário de Nossa Senhora da Penha


Hoje, pela primeira vez, visitei o Santuário o Nossa Senhora da Penha. Contudo, há muito tempo tinha vontade de subir aquela pedra, onde, em seu ponto mais alto, encontra-se o Santuário.


Por qualquer porta de entrada da Cidade do Rio de Janeiro, ao erguemos nossos olhos, em direção à zona norte, avistamos uma construção religiosa bela, cujo fundo é um céu, muitas vezes do mais brilhante azul. Devido ao número de degraus de sua principal escada de acesso, 365, muitos devotos pagaram e pagam,suas promessas subindo-os, um a um. Alguns de joelhos.


Ao chegar ao alto, além da emoção de ver a construção de perto, com belas paredes coloridas por um singelo amarelo, percebi que o seu interior estava adornado com lírios brancos. Pude ver que havia presentes de Natal, provavelmente entregues por fiéis respondendo a uma possível Campanha da Igreja ao "Natal dos Pobres".


Contemplei a vista maravilhosa do local, de um lado, a Baía de Guanabara e do outro, ao sul, o Corcovado e o Pão de Açúcar.


As maravilhas da cidade podem ser avistadas se mantivermos nossas cabeças erguidas. Contudo, ao baixarmos os nossos olhos, deparamo-nos com uma extensa região de extrema pobreza e que cresce aos pés do Santuário. De lá de cima, avistamos a Vila Cruzeiro, o Complexo do Alemão e parte da Maré, situada às margens de nossa Baía. Talvez, com uma lente mais potente, possamos enxergar Manguinhos, com seus casebres de palafitas. E contrastando com o azul do céu e dos detalhes do Santuário ao alto, predomina, abaixo, o vermelho dos tijolos descobertos e o cinza das lajes de concreto. O vermelho da amargura e do desespero e o cinza da tristeza e da desesperança.


Abaixo, a favela infiltrando suas raízes por todos os espaços e acima, nas árvores do Santuário, lindas flores coloridas, destacando-se as belas e alvas orquídeas.


Continuei a visita tão aguardada, andando por cada parte da construção. Além do Santuário, pude ver um prédio anexo, que talvez tenha funcionado para abrigar a administração do local, ou mesmo como residência de padres e freis. Mas o que vi, parecia um prédio abandonado, ocupado desordenadamente e em péssimas condições.


Cada vez mais, queria conhecer aquela realidade que parecia misteriosa, quando distante e acima de meus olhos, mas possível de ser decifrada, quando vista de perto. Desci rampas e outras escadas, mais estreitas que a principal. Cheguei em um terreno que parecia descuidado, com árvores frutíferas que teimavam em se manifestar: romã, pitanga, acerola, bananeira, limoeiro, mangueira, mamoeiro e outras que não reconheci.


Havia um canil, pequeno, com grandes cachorros que pareciam de raça, em gaiolas individuais.


Continuei minha excursão, agora, no outro lado, um pedaço do terreno que, no passado, talvez nem tão distante, parecia ter sido uma horta, num outro pedaço, um outro pomar. O espaço da horta estava completamente seco. Apenas as árvores teimavam em se manifestar. Nos cantos, juntavam-se vários tocos de arbustos.


Percebi, naquele instante, que aquele Santuário chorava, chorava lá, no alto da Penha. Quanto abandono, quanta negligência... Contrastando com tantas possibilidades e necessidades...


Há, no local, espaço físico e, talvez, até mesmo um projeto, quem sabe já amarelado e engavetado, de horta e pomar. Há, na região, fábricas, universidades e comércio que poderiam cofinanciar um projeto social. Há, nos arredores do local, recursos humanos ávidos pelo verde da esperança, pelo sabor das cores dos sonhos presentes naquelas frutas e flores que insistem em gritar aos ventos que sopram no ouvido de Nossa Senhora. Há, no local, a semente e o terreno para a implantação de um projeto social que possa levar ensino técnico na área de agronomia; que atraía jovens e crianças para a preservação da natureza; que possibilite a formação de jovens na história do Santuário e de toda a Região da Leopoldina, para repassá-la aos demais moradores e visitantes; para a implantação de uma creche para crianças de tantas famílias de trabalhadores.

Percebi ali, olhando em todas as direções, as potencialidades do local e de lá de cima eu me perguntava:

- O que falta então? O que falta para a missa sair do alto da Penha, ultrapassar as suas belas paredes e descer os seus 365 degraus para celebrar a vida?



Luzia M. Cardoso
Rio de Janeiro
Crônica e fotografia

(Visita e fotos realizadas por mim em 05/12/2010)


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