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quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando a morte de mulheres vira mito




Quando a morte de mulheres vira mito


Por que chamá-la de “morte materna” esconde o rosto e a vida de quem morre
 


Há mortes que não mais deveriam acontecer e, no entanto, acontecem diariamente, sem virarem manchetes e sem pronunciamentos de governantes.


São mortes apresentadas em tabelas, gráficos, relatórios e indicadores. Mortes que ganham nome técnico, número, categoria. E, assim, seguem sem rostos, sem familiares, sem a vida que ficou interrompida.


Nomearam essa de “morte materna”. 


Uma expressão muito repetida nos textos acadêmicos e na apresentação de políticas de saúde da mulher. Contudo, ela diz muito menos do que é, na realidade. Ao chamá-la de “materna”, reduz-se a mulher que morre à mãe e à função de maternar, apagando diferentes momentos e dimensões de uma vida inteira.


Além de não incluir outras pessoas com útero, que também podem engravidar.


A Razão de Morte “Materna” insere essas mortes em uma equação e as transforma em fração: o número de mortes “maternas” para cada cem mil nascidos vivos. 

Essa equação invisibiliza cada mulher que compõe esse índice: sua história familiar, seu trabalho, suas realizações, suas relações, seus desejos... Tira o foco do seu cansaço diário e de seus medos.

Os índices não revelam que alguém existia para além da gravidez. Talvez por isso essas mortes sejam tão facilmente naturalizadas, até mesmo, mitificadas: o sacrifício de Maria, mãe de Jesus.


Os estudos mostram, no entanto, que a maioria dessas mortes poderia ser evitada: em torno de 90%.

Isso não é pouco! Isso não é detalhe técnico! Isso é um escândalo!


E, ainda assim, seguimos com as mortes de gestantes e puérperas classificadas como “maternas” sendo tratadas como um problema de ajuste técnico: melhorar o pré-natal, agilizar o atendimento, capacitar profissionais, organizar serviços.

Tudo isso é necessário, sem dúvida, mas vem se mostrando pouco suficiente.

O que os números mostram e, ao mesmo tempo, também escondem é que essas mortes têm cor, lugar no mundo do trabalho, idade e território.

Em sua maioria, quem morre por causas obstétricas evitáveis são as mulheres negras que trabalham em atividades precárias, muitas vezes informais, predominantemente da área de serviços. São mulheres jovens que vivem nas periferias das grandes metrópoles; e também em territórios quilombolas, indígenas e ribeirinhos.

Mulheres muitas vezes solteiras, únicas provedoras, vivendo onde falta tudo: transporte, saneamento, acesso, tempo, escuta profissional.

Isso não é coincidência.

É estrutura.

Contudo, a explicação que costuma aparecer é outra. Fala-se em risco biológico, em predisposição, em fatores clínicos. Como se o corpo dessas mulheres pudesse ser compreendido fora de seu contexto, como se fosse ele o principal responsável pelo desfecho da gestação.

Ou, ainda, como se o problema estivesse nas próprias mulheres, quem sabe, decorrente de seu grau de instrução, estado civil ou, ainda, de sua frágil adesão ao pré-natal.

Assim, buscam respostas na própria mulher, e não no que atravessa suas vidas.

Falam sobre questões raciais, mas são frágeis as intervenções sobre o racismo que define quem é menos ouvido.

As normas apontam a necessidade de entender o trabalho dessas mulheres, que esgota o corpo antes da gravidez começar. Mas no dia a dia da assistência ofertada, a mulher não é ouvida e quando tenta falar de seu trabalho, é entendida como quem não quer trabalhar. Muitas vezes ouve: “Gravidez não é doença. Pode voltar ao trabalho.”

Suas dores são domesticadas com analgésicos e antidepressivos. O trabalho de parto muitas vezes é induzido, e a cesariana realizada em caráter de emergência.


E a violência segue, nem sempre em silêncio.

> O cuidado que mal chega, chega tarde; muitas vezes, nem mesmo chega.


Há também uma ideia persistente de que tudo se resolve dentro do hospital. Como se a morte começasse ali.

Não, a morte “materna” não começa nas instituições. Ela é produzida no território e no trabalho, muito antes do início da gestação.

A morte por causas obstétricas começa quando uma mulher sente suas forças esvaírem nos longos trajetos de casa ao trabalho, nos transportes precários, nas longas jornadas, muitas vezes atravessadas por assédio moral, nos parcos salários, no desrespeito aos direitos trabalhistas.

Essa morte se desenvolve nas escadarias dos morros, nos becos das periferias, na casa sem infraestrutura, nas panelas vazias, nos intermináveis afazeres doméstivo e com os filhos para cuidar.

O copo da mulher colapsa na falta de tempo para o autocuidado. O tempo que sobra após o trabalho remunerado é o tempo sugado pela casa e cuidados com a família.

Essa morte produzida nas condições de vida da mulher começa a se materializar na assistência precária, no atraso do diagnóstico e dos cuidados necessários.

E se fortalece nos ouvidos moucos, olhares e falas preconceituosas dos profissionais de saúde.

Dá para perceber que há algo profundamente incômodo nos índices de morte “materna”:


       > há conhecimento suficiente para evitá-las, mas, ainda assim, os índices permanecem elevados.


Mulheres continuam morrendo por causas obstétricas evitáveis. Talvez porque evitá-las de verdade não dependa apenas de protocolos, mas exige mexer em coisas maiores:


        > nas origens das desigualdades que organizam quem vive e quem morre;


É preciso agir sobre os elementos que dão forma à vida concreta.


Enquanto isso não é feito efetivamente, segue-se com estudos, análises, relatórios, artigos... mais textos.

Sem dúvida que são importantes, contudo, insuficientes, se não forem capazes de intervir concretamente na realidade dessas mulheres que estão morrendo. Insuficientes se não provocarem mudanças.


Porque, no fim, não estamos falando apenas de “morte materna”.

Estamos falando de mortes que poderiam não acontecer.

Estamos falando do fato de que, embora evitáveis, essas mortes continuam acontecendo.

 

Luzia M. Cardoso

26/03/2026


#saudereprodutiva #direitosreprodutivos #saúdedamulher


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