Quando a morte de mulheres
vira mito
Por que chamá-la de “morte materna” esconde o rosto
e a vida de quem morre
Há mortes que não mais deveriam
acontecer e, no entanto, acontecem diariamente, sem virarem manchetes e sem pronunciamentos
de governantes.
São mortes apresentadas em
tabelas, gráficos, relatórios e indicadores. Mortes que ganham nome técnico,
número, categoria. E, assim, seguem sem rostos, sem familiares, sem a vida que
ficou interrompida.
Nomearam essa de “morte materna”.
Uma expressão muito repetida nos textos acadêmicos e na apresentação
de políticas de saúde da mulher. Contudo, ela diz muito menos do que é, na
realidade. Ao chamá-la de “materna”, reduz-se a mulher que morre à mãe e à função
de maternar, apagando diferentes momentos e dimensões de uma vida inteira.
Além de não incluir outras pessoas com útero, que também podem engravidar.
A Razão de Morte “Materna” insere essas mortes em uma equação e as transforma em fração: o número de mortes “maternas” para cada cem mil nascidos vivos.
Essa equação invisibiliza cada mulher que
compõe esse índice: sua história familiar, seu trabalho, suas realizações, suas
relações, seus desejos... Tira o foco do seu cansaço diário e de seus medos.
Os índices não revelam que alguém
existia para além da gravidez. Talvez por isso essas mortes sejam tão
facilmente naturalizadas, até mesmo, mitificadas: o sacrifício de Maria, mãe de
Jesus.
Os estudos mostram, no entanto, que a
maioria dessas mortes poderia ser evitada: em torno de 90%.
Isso não é pouco! Isso não é
detalhe técnico! Isso é um escândalo!
E, ainda assim, seguimos com
as mortes de gestantes e puérperas classificadas como “maternas” sendo tratadas
como um problema de ajuste técnico: melhorar o pré-natal, agilizar o
atendimento, capacitar profissionais, organizar serviços.
Tudo isso é necessário, sem
dúvida, mas vem se mostrando pouco suficiente.
O que os números mostram e,
ao mesmo tempo, também escondem é que essas mortes têm cor, lugar no mundo do
trabalho, idade e território.
Em sua maioria, quem morre
por causas obstétricas evitáveis são as mulheres negras que trabalham em
atividades precárias, muitas vezes informais, predominantemente da área de serviços.
São mulheres jovens que vivem nas periferias das grandes metrópoles; e também em
territórios quilombolas, indígenas e ribeirinhos.
Mulheres muitas vezes
solteiras, únicas provedoras, vivendo onde falta tudo: transporte, saneamento,
acesso, tempo, escuta profissional.
Isso não é coincidência.
É estrutura.
Contudo, a explicação que
costuma aparecer é outra. Fala-se em risco biológico, em predisposição, em
fatores clínicos. Como se o corpo dessas mulheres pudesse ser compreendido fora
de seu contexto, como se fosse ele o principal responsável pelo desfecho da
gestação.
Ou, ainda, como se o problema
estivesse nas próprias mulheres, quem sabe, decorrente de seu grau de instrução, estado civil ou, ainda, de sua frágil adesão ao pré-natal.
Assim, buscam respostas na
própria mulher, e não no que atravessa suas vidas.
Falam sobre questões raciais,
mas são frágeis as intervenções sobre o racismo que define quem é menos ouvido.
As normas apontam a
necessidade de entender o trabalho dessas mulheres, que esgota o corpo antes da
gravidez começar. Mas no dia a dia da assistência ofertada, a mulher não é
ouvida e quando tenta falar de seu trabalho, é entendida como quem não quer
trabalhar. Muitas vezes ouve: “Gravidez não é doença. Pode voltar ao trabalho.”
Suas dores são domesticadas
com analgésicos e antidepressivos. O trabalho de parto muitas vezes é induzido,
e a cesariana realizada em caráter de emergência.
E a violência segue, nem sempre em silêncio.
> O cuidado que mal chega, chega tarde; muitas vezes, nem mesmo chega.
Há também uma ideia
persistente de que tudo se resolve dentro do hospital. Como se a morte
começasse ali.
Não, a morte “materna” não
começa nas instituições. Ela é produzida no território e no trabalho, muito
antes do início da gestação.
A morte por causas
obstétricas começa quando uma mulher sente suas forças esvaírem nos longos trajetos
de casa ao trabalho, nos transportes precários, nas longas jornadas, muitas vezes atravessadas por assédio
moral, nos parcos salários, no desrespeito aos direitos trabalhistas.
Essa morte se desenvolve nas
escadarias dos morros, nos becos das periferias, na casa sem infraestrutura, nas
panelas vazias, nos intermináveis afazeres doméstivo e com os filhos para cuidar.
O copo da mulher colapsa na falta de tempo
para o autocuidado. O tempo que sobra após o trabalho remunerado é o tempo sugado pela casa e cuidados com a família.
Essa morte produzida nas condições de vida da mulher começa a se
materializar na assistência precária, no atraso do diagnóstico e dos cuidados necessários.
E se fortalece nos ouvidos
moucos, olhares e falas preconceituosas dos profissionais de saúde.
Dá para perceber que há algo profundamente incômodo nos índices de morte “materna”:
> há conhecimento suficiente para evitá-las,
mas, ainda assim, os índices permanecem elevados.
Mulheres continuam morrendo por causas obstétricas evitáveis. Talvez porque evitá-las de verdade não dependa apenas de protocolos, mas exige mexer em coisas maiores:
> nas origens das desigualdades que organizam quem vive e quem morre;
É preciso agir sobre os
elementos que dão forma à vida concreta.
Enquanto isso não é feito efetivamente,
segue-se com estudos, análises, relatórios, artigos... mais textos.
Sem dúvida que são importantes,
contudo, insuficientes, se não forem capazes de intervir concretamente na
realidade dessas mulheres que estão morrendo. Insuficientes se não provocarem mudanças.
Porque, no fim, não estamos
falando apenas de “morte materna”.
Estamos falando de mortes que
poderiam não acontecer.
Estamos falando do fato de que, embora evitáveis,
essas mortes continuam acontecendo.

