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terça-feira, 1 de maio de 2012

Primeiro de Maio




Amanhece primeiro de maio com semblante gélido e uma chuva fina que invade a alma.  O vento corre pelas ruas, acordando as curvas e encruzilhadas... Tantas e tantas há muito desgraçadas. O vendaval grita sua dor de saudade. Saudade da relva rasteira, das flores vibrantes, das árvores de copas dançantes que lhe usurparam.
As nuvens baixam, precipitam-se brumas cinzentas que entram na gente mostrando as correntes da devastação.
Ah, solidão é rede das mais resistentes e que arrasta a gente quilômetros em vão.
Primeiro de maio carrega histórias... Tantas esperanças depositadas nos ombros da labuta, na crença de um futuro melhor...  Progresso distante...
A nobreza da alma à custa do sacrifício do corpo. A riqueza guardada a sete chaves espalha miséria nos quatro cantos do mundo.
Trabalho diurno, trabalho noturno, trabalho na fábrica, trabalho nas ruas, trabalho em casa. Jornadas multiplicadas. 
O transporte, enlatado, já amassa a massa que entra de supetão... Já pulsa o relógio que malha o pão. A vida se esvai no tempo apressado que abre a ferida da desilusão.
Aguenta peão! Há tarifas nos portões do amanhã. Olhe, já te cobram a partida! “Tempo é dinheiro”: tempo de vida, tempo de lida.
E na obra suada pelas migalhas de então, trabalha Maria, trabalha João!

Luzia M. Cardoso
RJ, 1º de Maio de 2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Comida


Casal assistia "Estômago". Ao final, o homem: "A mulher passou o filme comendo e sendo comida". A acompanhante: "Achei que apenas ela comia".


Percepções à parte, o filme é excelente:

sábado, 28 de janeiro de 2012

Reintegração de Posse





O desalojamento que ocorreu na comunidade do Pinheirinho, em São Paulo, essa semana, foi algo de causar indignação. Há cerca de oito anos atrás, pessoas, famílias, excluídas do direito à habitação, diante de um terreno sem uso, às moscas, construíram sua humildes residências. Criaram uma comunidade, tentando garantir, com a luta de cada dia e com o suor do rosto, o chão, o teto e o pão de sua prole. E agora, a justiça de São Paulo, defendendo interesses individuais, o direito à propriedade privada, em detrimento da necessidade de uma coletividade,  despejou todos os que ali estavam, utilizando aparato policial para remover crianças, adolescentes, idosos, deficientes, além de tantos outros adultos que, juntos e ali, criaram uma história, formaram famílias.

Alguns, certamente, dirão que se havia um proprietário do terreno, ninguém poderia ocupá-lo, pois o direito do mesmo deveria ter sido respeitado. Sim, o direito à propriedade, no sistema capitalista, deve ser respeitado, mas e os direitos sociais e humanos não? O que deverá ter prioridade, a vida de uma comunidade ou a riqueza de um indivíduo?

Não consigo entender essa dicotomia dentro do próprio Estado. Os níveis de governo não se entendem, não caminham juntos para o bem-estar da sociedade. Dentro de um mesmo nível de governo, as Secretarias não se comunicam. Mesmo respeitando os direitos à propriedade privada, que é um dos pilares do sistema capitalista, haveria de se planejar a ação, buscando atender os direitos humanos e sociais, de forma que, ao mesmo tempo em que se devolvesse ao proprietário o que lhe é de direito, garantisse, por meio da política de Habitação e de Assistência Social, o direito à moradia digna às famílias envolvidas.

E foi pensando na comunidade do Pinheirinho que comecei a refletir e escrevi o poema cujo acesso está no link abaixo


http://evivendoquesevive.blogspot.com/2012/01/reintegracao-de-posse.html

domingo, 22 de janeiro de 2012

Praça




Praça


         Não, não falarei agora de nenhum amigo meu... Grande camarada... Embora a saudade me aperte... Nem tampouco do raso soldado desta pátria, com suas vestes brancas, azuis ou verde-oliva, formado no compasso do refrão, com o futuro fora do alcance da visão.
         Se pensas que descreverei aquela nossa praça... O largo no meio às ruas convergentes, que no passado juntava tanta gente... Os anciãos, livros de tantas memórias... A juventude que escrevia a própria história... Ah, e tantas crianças com bonecas e piões... E quantas dobras palpitavam corações, vincando bilhetes que prometiam emoções... Tinha coreto, jornal do dia, algodão doce... E as pipocas que estouravam entre olhares e acenos das janelas, abrandando almas que caminhavam solitárias... Daquela praça, sopra-me a brisa fresca que chega sorrindo nas lembranças que me afagam... 
          Não, não é desta praça que falo, pois a praça que hoje vejo é sutil, brilhante e muito mais ampla... Do largo do passado trouxe as frestas... Nem sempre estou à toa quando abro minha janela e vejo circo, bandas, procissões e funerais... E ali no meio, vibro e sinto com o que passa por ela.
      A praça de que falo herdou os bancos, embora presos entre quatro paredes. Privados, não se expõem ao tempo... Não brilham mais com a aura do luar e não queimam, não têm o calor da luz solar. E essa praça é tão real e diferente... As novidades borbulhando em muitas mentes adolescentes que questionam o adulto que apresenta a SOPA (Stop Online Piracy Act), olhando desconfiados para a PIPA (Project IP ACT) que ameaça o espaço.
      Nessa praça correm notícias... E nisso, mantém a natureza da de antes, que hoje agoniza deserta, vazia e sem poesia... Na nova praça há também rodas distintas: tem as de papo-cabeça; as do buraco e biriba; os games despertando adrenalina e muitas risadas da garotada... Ahhh, e tantos flertes e paixões, em matizes que disparam corações... E alguns amantes, como outrora, que na calada da noite, correm furtivos, ocultos... Vão buscar outros prazeres, pulando janelas... E na praça, os mesmos riscos daquela velha língua de Matilde.
       Mas se toda praça é terreno de litígios e comunhão, a de hoje não limita a dimensão... Não tem fronteiras em nenhuma direção e nas janelas, debruça gente de tantas nações. E se exagero terminando o texto em “ão”, muito antes de à nova era eu estar dizendo não, nas entrelinhas, uma questão... 

Luzia M. Cardoso
Rio de Janeiro

Siglas:

PIPA: Project IP ACT - Ato para Proteção da Propriedade Intelectual.

SOPA: Stop Online Piracy Act - Lei de Combate à Pirataria Online.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pelas Calçadas...




       São muitas as coisas que encontramos pelas calçadas, e que podemos observar, principalmente quando fazemos percursos a pé. Algumas nos levam a sorrir, nostálgicos, como a marca do triângulo para as disputas de bola-de-gude, os quadrados que nos levam ao “Céu” e ao “Inferno”, dos jogos de amarelinha. Ah, o barbante do pião, rabiolas coloridas de pipas... Brincadeiras de crianças...

       Também encontramos canteiros, com pequenos jardins e árvores colorindo nosso caminho com folhas e flores de matizes diversas. E viajamos pela doce primavera; relembramos o calor mais intenso daquele verão; a brisa calma do outono, e as cinzentas nuvens do inverno. E tudo isso na calçada.

        Ah, mas não há somente poesia, não. Ainda encontramos papéis, chicletes, palitos de churrascos (de gato?), churrasqueiras, bancas de frutas, outras tantas de cacarecos dos mais diversos.
       A calçada, pavimento, passeio público, lugar de pedestre, mas que vem sendo invadida por carros que nela insistem estacionar, quebrando as pedras, o cimento, esbarrando nos canteiros, empurrando pessoas, carrinhos de bebês e idosos para a rua. E por causa dessa invasão, e inversão, assistimos à multiplicação de gelos baianos (não sei por que atribuíram a naturalidade baiana aos blocos de concretos. Poderiam ser cariocas, ou gaúchos, ou...).
       Mas de tudo o que já vi pela calçada, o que mais tem chamado a minha atenção são os corpos estirados sobre o cimento duro, cinza, sujo. Sim, corpos, corpos e mais corpos. Corpos de crianças de cerca de nove, onze anos, de adolescentes, de jovens homens e mulheres. Corpos largados, abandonados e atravessados na calçada. Parecendo anestesiados ao frio, ao sol.
         Vejo pessoas, que passam perto desses corpos, sem os notarem, como se fossem invisíveis, como já acontece com os corpos de etilistas, que desfalecem ao torpor do álcool; ou dos mendigos que, fatigados, lançam-se no chão para descansarem de uma noite de vigília.
       Parece, no entanto, haver alguma diferença entre os etilistas e mendigos e os corpos com que tenho me deparado nas calçadas. Os primeiros procuram um banco de praça, uma marquise, uma soleira para deitarem, para caírem. De certa forma, buscam alguma proteção, mesmo que ilusória.
     Os corpos que vejo pelo chão parece terem sido abandonados por seus proprietários, seus donos de fato e de direito: a própria pessoa. É como se a alma, ou o espírito tivesse abandonado o corpo à própria sorte, como um peso, largado no caminho.
           E assim, assistimos ao que pode ser o momento mais triste e degradante das nuvens do crack, dessa nova epidemia que atinge a população: pelas calçadas, há corpos estendidos no chão.

Luzia M. Cardoso


Crônica selecionada para publicação no CBJE, 2011.




terça-feira, 20 de setembro de 2011

UM RIO DE DESCASO




Manhã de terça-feira. Preciso ir ao Centro da minha Cidade Maravilhosa. Conheço o rush e opto por ir de ônibus pois sei que o fluxo será lento, além das dificuldades de estacionamento. Em todo caso, imagino que, num percurso em que faria entre 30 a 40 minutos, em outro horário, talvez, a essa hora, eu o faça em 60min.
Entro no ônibus e já na Avenida Brasil um engarrafamento injustificado. Não era o trânsito lento que previa, mas um trânsito parado. Fazer o quê?
Resolvo observar a paisagem. Gosto de olhar a arquitetura dos prédios, bem como os grafites que insistem em gritar nos muros da cidade. Mas se gosto de grafites, acho as pichações de extremo mau gosto e falta do que fazer.
E por falar em arquitetura, nunca é demais observar a beleza do Castelo Mourisco, na Fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos. 


No caminho, ouço o grito de muitos grafites interessantes. Alguns em linhas curvas, em preto e branco, com temas românticos e que, pelo traço, parecem ser de uma mesma pessoa. Outros, em cores mais fortes, mostram expressões de susto, de descontentamento, retratando crianças e adultos. O muro da Usina de Cidadania é outro momento bastante agradável, onde há grafites que denunciam a destruição do meio ambiente.
Como por ironia, entre o Castelo Mourisco e a Oficina de Cidadania, há um rio com águas turvas, pesadas, inertes. Lá, multiplicam-se as favelas em Manguinhos, às margens de um rio defunto.



Insisto em olhar a rota do rio, procurando o ponto de partida. Vejo a Serra da Tijuca, onde, quem sabe por algum milagre, ainda exista a sua nascente. Do outro lado, o rio segue o seu destino, desaguando na não menos poluída Baía de Guanabara. Fico desolada.
E o tempo passa... Eu ainda estou lá, andando como tartaruga, na Avenida Brasil.
A partir desse ponto, o que vemos é de chorar. Muitos prédios desativados, tanto de empresas privadas, como a antiga fábrica de sabão União Fabril Exportadora - UFE, quanto os prédios públicos. Até por uma igreja em péssimas condições nós passamos.
Uma cidade largada é o que vemos pela Avenida Brasil, de São Cristóvão ao Terminal Rodoviário Menezes Cortes, próximo ao Porto do Rio.


O que deveria ser uma das portas de entrada do Rio é algo simplesmente deplorável de feio, de décadas de desprezo, negligência e má administração. E olha que nessa região temos um mix de público e privado.


O que salva são os artistas anônimos que grafitam os muros. Já ao entramos na Avenida Francisco Bicalho, deparamo-nos com os pilares do Elevado Paulo de Frontin com versos do Poeta Gentileza e, em um dos muros, um grafite que o retrata. Bárbaro! 




Nas paredes externas da Usina de Asfalto, da Secretaria Municipal de Obras, do município do Rio de Janeiro, também têm grafites muito bonitos...




Mas ao longo da via que dá acesso ao Terminal Ferroviário da Leopoldina, as construções continuam largadas.
Enfim, o ônibus desce a Avenida Presidente Vargas e vejo os prédios de arquitetura americana, logo na entrada. E imediatamente, minha visão bate na nova passarela de pedestres, com estrutura pintada em cor bronze metálico, bem em frente à Prefeitura. Uma passarela que se destaca ainda mais quando observamos a seguinte que também atravessa a mesma avenida, visto à precariedade em que se encontra. 



Ao passar em frente ao local, lembrei-me que ali, onde ergueram os prédios da Administração Municipal do Rio de Janeiro, ficava a Vila das Mimosas, uma antiga e muito conhecida zona de prostituição. Num passado não muito distante de nossa história, e por algum tempo, o prédio principal ficou conhecido como "piranhão", e o anexo como “cafetão”.
É triste demais vermos que na mesma avenida de prédios luxuosos e uma passarela reluzente, o Hospital São Francisco de Assis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro parece uma casa mal assombrada de tão largada. E apesar das condições inadequadas, alguns serviços ainda são ofertados à população naquele local.



Agora em frente ao Campo de Santana, passo pelo prédio onde Deodoro da Fonseca teria proclamado a República e percebo que o parque é uma admirável república comunista, onde convivem as árvores, o lago, os patos, marrecos, cachorros, gatos, ratos, preás, pombos, pardais e até um pavão... Todos ali, no mesmo local, juntos, usufruindo do que o Campo de Santana tem para oferecer e, ao mesmo tempo, contribuindo para a sua preservação. Uma lição, não?
Estava entrando no que deveria ser o Centro Histórico do Rio, devido às memórias daquelas ruas e de seus  prédios. Lá estão a rua da Alfandega, a Moncorvo Filho, a Frei Caneca, Mem de Sá, Rua do Riachuelo e outras ruas transversais.


Falo da área que vai da Cidade Nova aos Arcos da Lapa, daquelas janelas antigas, dos flertes e das fofocas... As pequenas varandas. Fachadas do Século XIX, como a da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. 


Apesar do inegável valor histórico do local, o que vemos: péssima preservação, comércio fraco, ruas sujas, insalubres, cheirando a mijo, algumas têm fezes pelo chão... Consequência, moradores sumindo.
Por ironia, na mesma região, temos também uma grande concentração de unidades de saúde: Hospital Souza Aguiar, Instituto de Hemoterapia (HEMORIO), Instituto de Endocrinologia (IEDE), o agonizante Instituto de Assistência aos Servidores do Estado do Rio de Janeiro (IASERJ), Instituto Nacional do Câncer (INCA), Hospital da Cruz Vermelha, entre outras públicas e privadas. Se acrescentarmos os hospitais que ficam do outro lado da Avenida Presidente Vargas e se estendermos a nossa observação ao espaço que vai da Praça Mauá à Praça XV, perceberemos que ali há, talvez, a maior concentração de unidades do Sistema Único de Saúde - SUS - da cidade do Rio de Janeiro.
Já prestes a saltar naquele rio de descaso, fico a sonhar com a Cidade Histórica do Rio de Janeiro. Imagino as ruas limpas, pessoas andando a pé ou de bicicletas, crianças, jovens e adultos jogando capoeira na Praça Cruz Vermelha, muita gente nas calçadas ou curtindo um sambinha nos bares, passeando no Bondinho por cima dos Arcos da Lapa, tomando um chá na Confeitaria Colombo ou no Café Casè, aguardando a noite seduzi-las para o samba de gafieira no Elite ou na Estudantina, ou para o teatro de Revista no Rival. Quem sabe uma peça no teatro João Caetano, um cineminha no antigo Cine Odeon, um sambão de escola de samba no Sambódromo... Outros irão ouvir música na Sala Cecília Meireles, dançar um forró no Circo Voador, apreciar um recital dos alunos da Escola Nacional de Música...
Desço do ônibus pensando nos governantes e parlamentares que elegemos. Tropeço numa pedra e caio na real: 
- Levei duas horas e trinta minutos para chegar ao local!


 Luzia M. Cardoso
Crônica e fotos
Rio de Janeiro

domingo, 7 de agosto de 2011

Respeitar a liberdade de decisão ou internar compulsoriamente? As cracolândias em questão

Respeitar a liberdade de decisão ou internar compulsoriamente? As cracolândias em questão


Segunda-feira, 8:h30min. Saio do estacionamento em direção ao trabalho. No percurso, deparo-me vários corpos atravessados na calçada. Homens, mulheres, de diferentes idades, ali, largados no chão. Corpos sujos, roupas rotas, rostos inchados e inertes. 
Não, não vivo em um país em guerra. Não houve nenhum terremoto ou maremoto por aqui. Não, as pessoas ali largadas não estão mortas. A sensação que dá é que seus corpos viraram fardos de suas próprias almas. E aí, despidas da carne, as almas seguem a viagem alucinante.
Diferentemente de muitas pessoas em situação de rua, os dependentes de crack nem mesmo conseguem pensar em proteger-se, abrigando-se sob uma marquise, ou no canto da calçada, ou no banco de uma praça. Simplesmente, abandonam-se em qualquer lugar.
Encontrar corpos atravessados nas calçadas, em qualquer bairro da capital do Rio de Janeiro, já faz parte da rotina de quem anda pelas ruas. E as pessoas que passam parecem estar no mesmo transe que os dependentes químicos, como se a droga anestesiasse quem a consome e quem assiste os seus nefastos efeitos.
As pessoas no chão parecem ficar invisíveis. Não se nota mais se é adulto, criança ou adolescente. Se é homem ou mulher, se ela está ou não grávida. Parece não haver questionamentos se quem está ali dorme ou está inconsciente.
Teve um dia em que ouvi uma senhora dizer a outra que ao encontrar um adolescente nesta situação, ligou para o Conselho Tutelar, contudo, ela dizia que ao explicar a situação, ouviu da atendente que não deveria ligar lá, e sim para a polícia. 
Será que é caso de polícia as situações em que adolescentes, vencidos pelas drogas, largam-se nas calçadas? 
Naquele momento, ouvindo as senhoras conversando, lembrei-me do que soube acerca do entendimento de alguns abrigos sobre o direito de ir e vir de crianças e adolescentes, levando-os a não impedirem crianças e adolescentes abrigados de irem para as ruas, embora desacompanhados. 
Tenho a impressão de estar no avesso do avesso, como Caetano na Avenida São João. Acredito que se crianças e adolescentes estão em fase de desenvolvimento físico, mental, emocional e cognitivo, e por isso não respondem pelos próprios atos, sua liberdade deve ser supervisionada por seus responsáveis ou por um adulto por estes designado. Será que comprendo errado?
Estamos diante de compreensões? Então, convivemos com o entendimento de que adolescentes largados nas ruas, provavelmente sob o efeito de drogas, é caso de polícia, como convivemos com pessoas que acreditam que adolescentes e crianças abrigados têm o direito de saírem às ruas sem supervisão. 
Serão essas diferentes compreensões que definem a execução das políticas sociais? E o que fazer diante da epidemia que toma conta das periferias? Sim, das periferias, embora eu tenha a clareza que a droga extrapola fronteiras sociais, contudo, o que vemos nas periferias é em número assombroso. Há casos que em uma mesma família o crack está presente no cotidiano de jovens pais de crianças. A adicção, nesses casos, parece ser intergeracional e intrafamiliar.

Não tenho a menor dúvida de que temos que intervir nessa situação. Também não tenho a menor dúvida de que não devemos deixar ao relento, largados nas ruas, as vítimas do crack, de qualquer outra droga, ou por qualquer motivo. Atendimento no local, recolhimento, abrigamento, alimentação, roupas e assistência profissional devem ser ofertados, insistentemente, aos envolvidos. Digo, ofertar serviços insistentemente, não digo internação compulsória dos dependentes, apesar de saber que essa proposta vem sendo defendida por muitas pessoas e já executada na cidade do Rio de Janeiro. Entendo, no entanto, que todo e qualquer cidadão, quando nas ruas, largado no chão, deve ser conduzido a um abrigo, contudo, quando adultos, respeitando a sua liberdade e autonomia.
E com relação às crianças e adolescente? Ah, vejo que voltamos à questão já abordada aqui: o direito de ir e vir dessa parcela da população. Na minha opinião, esse direito implica também no dever dos responsáveis de garantir-lhes supervisão, pondo-os a salvo de situações de perigo e constrangimentos, intervindo em situações de risco, e estabelecendo o limite, sempre que necessário. 
Todavia, para que os responsáveis de crianças e adolescentes cumpram com as obrigações inerentes ao poder familiar, eles precisam de estabilidade, não só emocional, mas econômica e social. E aí temos uma outra questão. As condições de vida de muitas famílias residentes em periferias são desumana.s Muitos barracos sem reboco, com chão de cimento grosso, paredes úmidas, e sem um janela sequer. É inacreditável!!! Em muitas unidades residenciais a ventilação ocorre apenas por meio da porta de entrada. Algumas têm menos de quatro metros quadrados de área total. As ruelas são super-estreitas, há esgoto aberto, lixo largado em qualquer lugar. Em algumas comunidades, por serem verticais, o sol não chega às portas, os olhos não alcançam ao céu, e o horizonte... Ah, aí não há nenhum horizonte.
Penso que a epidemia do crack é sim uma questão de saúde e, por isso, a política de combate às drogas deve estabelecer programas nos três níveis de assistência: primário, secundário e terciário. Além das unidades de internação e tratamento para os dependentes químicos, a situação necessita de ações preventivas. 
Há, no entanto, que resgatar a definição de saúde presente em nossa Carta Constitucional e na Lei Orgânica de Saúde. Assim, tirar a cidadania do papel e materializá-la na realidade das periferias garantindo a todos o direito à moradia digna, à alimentação, ao trabalho protegido, devolvendo-lhes o ar, o sol, o céu e o sonho, torna-se indispensável para que todos os pais tenham condições de cuidar de seus filhos e poder mostrar-lhes o brilho e as cores do horizonte.

Luzia M. Cardoso