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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Liturgia da pilhagem: Cruzadas atualizadas

 


Liturgia da pilhagem

Cruzadas atualizadas

 

Nesta sexta-feira santa – um entre tantos dias santos – acordei com os olhos nas Cruzadas. Organizações que, com botas, cruzes, armas e mordaças, invadiam terras alheias para caçar os infiéis, aqueles supostamente aliados de Satanás. E tudo em nome de Deus.

Ares europeus pairavam nas nuvens barbadas de um deus branco implacável.

Os ungidos de Deus massacravam sem dó nem piedade tudo o que encontravam pela frente: matavam, torturavam, violavam, amaldiçoavam e pilhavam – pilhavam sobretudo tudo o que reluzisse ouro.

Dominaram em nome de Deus. Converteram em nome de Deus. E o mais perverso: os então convertidos passaram a viver em um inferno que nem mesmo Satanás imaginara: completamente dominados, destinados ao trabalho eterno e empurrados para cantos sombrios: porões, quartos de despejo, guetos.

Mantiveram-se por séculos trabalhando: ora sob o chicote de couro, ora sob o chicote do relógio de ponto, sempre em troca de um prato de comida e um teto frágil feito papelão.

Esses filhos “recuperados” de Deus passaram a estranhar a vida nos porões enquanto outros frequentavam amplos salões e dormiam em luxuosas suítes. Inconformados, reivindicaram também a ocupação desses espaços. Chamaram-nos de rebeldes, guerrilheiros, arruaceiros – nomes dados àqueles que ousaram deixar de caber nos porões.

Décadas se passaram, e formas cada vez mais sutis de impor a bota europeia surgiam. Agora, as botas calçavam a águia de cabeça branca, garras de aço e olhos de fogo. Seu trino ecoava o termo “desenvolvimento”. Em tons filantropos, apresentava-se como disponível em ajudar aqueles “irmãos” viventes em terras ditas pouco desenvolvidas. Mas a bota continuava a revirar tudo, enquanto a águia farejava e escolhia o que drenar para o seu ninho.

Ainda assim os rejeitados resistiram. Lutaram, se reorganizaram, tentando proteger o que lhes era de direito consuetudinário – eram filhos de Deus, herdeiros, portanto.

Hoje, em pleno século XXI, já não cola a ideia de infiéis a Deus, tampouco de filantropos desinteressados. Mas as riquezas continuam sob a mira da águia – que passa a dispensar botas e a se orgulhar de suas garras. A águia e seus filhotes querem muito mais: petróleo, neodímio, disprósio, gemas raras, além do ouro e da prata.

E como abrir as artérias dessas terras e levar todo seu sangue para os ninhos de águias?

Chamando os “infiéis” de terroristas, ou de narco-terroristas. Assim, aqueles velhos invasores, conhecidos opressores, vestem o manto de salvadores, e investidos de um “direito legítimo” – tão antigo quanto conveniente , o mesmo erguido nas Cruzadas. Invadem, destroem, matam. E nem mais rezam – agora, gargalham sobre os escombros: se fazem deuses, ditam leis e proclamam “libertação".

 

Luzia Magalhães Cardoso

03 abril de 2026

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