Liturgia da pilhagem
Cruzadas atualizadas
Nesta sexta-feira santa – um entre tantos dias santos – acordei
com os olhos nas Cruzadas. Organizações que, com botas, cruzes, armas e
mordaças, invadiam terras alheias para caçar os infiéis, aqueles supostamente
aliados de Satanás. E tudo em nome de Deus.
Ares europeus pairavam nas nuvens
barbadas de um deus branco implacável.
Os ungidos de Deus massacravam sem dó nem
piedade tudo o que encontravam pela frente: matavam, torturavam, violavam,
amaldiçoavam e pilhavam – pilhavam sobretudo tudo o que reluzisse ouro.
Dominaram em nome de Deus. Converteram em
nome de Deus. E o mais perverso: os então convertidos passaram a viver em um
inferno que nem mesmo Satanás imaginara: completamente dominados, destinados ao
trabalho eterno e empurrados para cantos sombrios: porões, quartos de despejo,
guetos.
Mantiveram-se por séculos trabalhando:
ora sob o chicote de couro, ora sob o chicote do relógio de ponto, sempre em
troca de um prato de comida e um teto frágil feito papelão.
Esses filhos “recuperados” de Deus
passaram a estranhar a vida nos porões enquanto outros frequentavam amplos
salões e dormiam em luxuosas suítes. Inconformados, reivindicaram também a
ocupação desses espaços. Chamaram-nos de rebeldes, guerrilheiros, arruaceiros –
nomes dados àqueles que ousaram deixar de caber nos porões.
Décadas se passaram, e formas cada vez
mais sutis de impor a bota europeia surgiam. Agora, as botas calçavam a águia
de cabeça branca, garras de aço e olhos de fogo. Seu trino ecoava o termo
“desenvolvimento”. Em tons filantropos, apresentava-se como disponível em
ajudar aqueles “irmãos” viventes em terras ditas pouco desenvolvidas. Mas a
bota continuava a revirar tudo, enquanto a águia farejava e escolhia o que
drenar para o seu ninho.
Ainda assim os rejeitados resistiram.
Lutaram, se reorganizaram, tentando proteger o que lhes era de direito
consuetudinário – eram filhos de Deus, herdeiros, portanto.
Hoje, em pleno século XXI, já não cola a
ideia de infiéis a Deus, tampouco de filantropos desinteressados. Mas as
riquezas continuam sob a mira da águia – que passa a dispensar botas e a se
orgulhar de suas garras. A águia e seus filhotes querem muito mais: petróleo,
neodímio, disprósio, gemas raras, além do ouro e da prata.
E como abrir as artérias dessas terras e
levar todo seu sangue para os ninhos de águias?
Chamando os “infiéis” de terroristas, ou de narco-terroristas. Assim, aqueles velhos invasores, conhecidos opressores, vestem o manto de salvadores, e investidos de um “direito legítimo” – tão antigo quanto conveniente –, o mesmo erguido nas Cruzadas. Invadem, destroem, matam. E nem mais rezam – agora, gargalham sobre os escombros: se fazem deuses, ditam leis e proclamam “libertação".
Luzia Magalhães
Cardoso
03 abril de 2026


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